Antônio Maria

Em retrospectiva, a Copacabana dos primeiros anos 50 parece muito romântica. E, para quem a viveu, devia ser mesmo. Mas, aos olhos do jornalista Antônio Maria – que, praticamente, só a via de noite e, quase sempre, de dentro da boate -, ela também tinha um “clima sombrio de Le  jour se lève“, um antigo filme francês  com Jean Gabin (no Brasil, Trágico Amanhecer.) Para Antônio Maria, o letrista Alberto Ribeiro só a chamara de princesinha do mar e dissera que, pelas manhãs ela era a vida a cantar, porque “morava na Zona Norte e não devia estar muito bem informado”. Vista de perto, dizia Maria numa crônica da época, a noite de Copacabana era uma passarela de ” mulheres sem dono, pederastas, lésbicas, traficantes de maconha, cocainômanos e desordeiros da pior espécie”. Uau!

Talvez fosse possível morar em Copacabana e não enxergar nada daquilo, mas Antônio Maria circulava pelos lugares mais vivos do bairro, às horas mais mortas. Aliás, pagavam-no para isto. Em sua descrição, “homens urinavam tranquilamente à porta dos bares e valentões espancavam gente indefesa, a poucos metros de policiais que, em vez de intervir, palitavam os dentes e davam gargalhadas boçais”. Cada edifício tinha “uma média de cinquenta janelas”, atrás das quais se escondiam, pelas suas contas, “três casos de adultério, cinco de amor avulso, seis de casal sem bênção e apenas dois de cônjuges unidos no padre e no juiz”. Nas outras  34 janelas, parecia não estar acontecendo nada, mas “era só esperar pelos vespertinos: eles falariam de tiroteios, assassínios, roubos, desquites e suicídios”. E, como se não bastasse, faltava água.

De 1948 a 1964, Antônio Maria manteve uma popularíssima coluna em diversos jornais do Rio (Diário Carioca, O Jornal, última Hora e O Globo). No seu registro cotidiano da Zona Sul (ou de Copacabana, já que Ipanema era considerado um apêndice e havia dúvidas sobre a existência do Leblon), Maria criava uma atmosfera noir, sufocante e claustrofóbica, onde a vida amorosa era quase uma letra de tango, só que em ritmo de samba-canção. Ele devia saber o que estava dizendo porque, se você fizesse um resumo de suas músicas, sairia convencido de que ninguém amava ninguém e que, se ele morresse amanhã, não haveria quem sua falta sentisse. As pessoas eram restos de bebidas que outras jogavam fora e, se Antônio brigasse com uma mulher às três e cinco da madrugada, cinco minutos depois já seria tarde para o arrependimento. Que fossa. Pois era o que suas letras diziam.

Mas, afinal, não devia ser TÃO ruim porque o pernambucano Antônio Maria morou em  Copacabana durante quase toda sua vida no Rio. E a maior parte desse tempo ele passou dentro dos bares, boates e restaurantes entre o Leme e o Posto 6, em muitos dos quais tornou-se uma lenda. Tinha um jeitão espaçoso, engraçado e generoso, mas que também podia ser valentão, intempestivo e incoveniente – mais ainda depois do décimo uísque. Nem todos gostavam dele, mas a maioria não se atreveria a enfrentá-lo num mano a mano. Não admira: Maria ocupava 1,85m do chão ao teto e carregava uma estrutura de 130 quilos de músculos e gordura bem socados. Mas parecia ainda mais assustador por sua presença no rádio e na televisão e pela força de sua coluna, capaz de derrubar ou construir reputações – houve época em que, se ele desaprovasse um artista ou um show, podia-se mandar encomendar os lírios.

Para cunhar uma frase, Maria era um “menino grande”, às vezes precisando de umas palmadas. As quais acabou levando, mas pela mão das mulheres. Ele tinha o coração duplamente a perigo: era cardíaco até a última aorta e protagonista dramático de tremendas paixões amorosas, que relatava em música sem o menor pudor. Uma dessas paixões públicas foi por Danuza Leão, que “tomou” de Samuel Wainer, seu próprio patrão em Última Hora, e  com quem viveu, de 1960 a 1964, um caso de filme mexicano.

 

Palavras de Danuza sobre o caso:

Em 1953, acompanhou um amigo em uma visita a um preso famoso, detido por uma CPI que investigava seu jornal, a Última Hora. Era Samuel Weiner, com quem teve os filhos Deborah (a Pinky), Samuel (Samuca) e Bruno. Foram anos de noitadas sem fim e viagens incríveis, como à China de Mao Tsé-tung. “Apresentei Samuel à vida glamourosa e ele me apresentou ao poder.” O casamento tinha um rival imbatível: a Última Hora, fixação de Weiner. Aos 27 anos, exausta da ausência do marido, apaixonou-se pelo cronista e compositor Antônio Maria. “Mulato de pele clara, era gordo, muito gordo, e de bonito não tinha nada”, mas tinha o que ela queria: coração e ouvidos. “Venceu Antônio Maria, com o argumento simples (…) de que não poderia viver sem mim. E existe alguma coisa mais forte?”

Existia, sim: o amor pela liberdade. O ciúme de Antônio Maria destruiu o romance. O ano era 1964, Weiner estava exilado em Paris e foi lá que ela desembarcou com os filhos, retomando a amizade com o ex, apaixonado. “Desconfio que o mito desse amor – muito estimulado por ele – era um escudo para livrá-lo de compromissos mais sérios com as dezenas de namoradas que teve depois de mim. Grande estrategista, Samuel.”

Mais de Antonio Maria: Aqui, aqui e aqui.

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