A culpa foi minha, chorava ela, e era verdade, não se podia negar, mas também é certo, se isso lhe serve de consolação, que se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que cá já não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala, Será, mas este homem está morto e é preciso enterrá-lo.

página 84, Ensaio Sobre a Cegueira, Saramago.

Aos Desnamorados

Em 2007 eu publiquei no meu ~ fotolog ~ esse textinho sobre “desnamorados”. Seis anos depois, ele ainda vale. 

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A todos nós, eles, elas, eu, tu, vós, e quem seja mais… ou menos.

Aos desnamorados por convicção, por opção, por falta de opção, por destino, por escolha, por amor próprio, por falta de amor, por excesso dele, por descaso, pelo acaso, por conveniência ou por falta dela, por motivo nenhum, por todos os motivos, por desesperança, pela espera, por crença, por falta de fé, por tudo e por nada.

Que nosso desnamoro dure a eternidade do nosso não querer, que seja bom enquanto for, que vá quando chegar sua hora. Que não seja triste e, se for, que não seja dramático. Que não seja solidão e, se for, que não seja desespero. 

Ao nosso desnamoro, os dias de vivências compartilhadas ainda assim.
Ao nosso desnamoro em dias de desamor. 

– 

ps: Na época, eu o creditei apenas à “Cynara”. Não lembro quem é Cynara, infelizmente.

ps 2: posso dizer que 2007 foi um dos melhores anos da minha vida. Passei no vestibular, tive um semestre de férias, fui morar sozinha, comecei a faculdade, a trabalhar, a pagar minhas contas, vivi um sem fim de coisas pela primeira vez, inclusive namorar e amar, logo depois de publicar esse texto. 

Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago

(…) fizemos dos olhos uma espécie de espelhos virados para dentro, com o resultado, muitas vezes, de mostrarem eles sem reserva o que estávamos tratando de negar com a boca. ~ página 26

Se não se pretender reduzi-la a uma definição primária, o que finalmente se deverá dizer dela, em lato sentido, é que vive como lhe apetece e ainda por cima tira daí todo o prazer que pode. ~ página 31

 

Sobre Férula

“Ao longo de tantos anos de solidão e tristeza tinha ido decantando as emoções e limpando os sentimentos, até os reduzir a umas poucas terríveis e magníficas paixões, que a ocupavam por completo. Não tinha capacidade para as pequenas perturbações, para os rancores mesquinhos, as invejas dissimuladas, as obras de caridade, os carinhos mornos, a cortesia amável ou as considerações citadinas. Era um desses seres nascidos para a grandeza de um só amor, para o ódio exagerado, para a vingança apocalíptica e para o heroísmo mais sublime, mas não conseguiu realizar seu destino à medida da sua romântica vocação, e esse destino decorreu chato e cinzento, entre as paredes de um quarto de enferma, em míseros asilos, em tortuosas confissões, onde essa mulher grande, opulenta, de sangue ardente, feita para a maternidade, para a abundância, a ação e o ardor, se foi consumindo.”

 

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“Todos os que viveram aquele momento, dizem que era por volta das oito da noite, quando apareceu Férula, sem que nada fizesse prever a sua chegada. Todos puderam vê-la com a blusa engomada, o molho de chaves à cintura e o coque de solteirona, tal como a tinham visto sempre em casa. Entrou pela porta da sala de jantar no momento em que Esteban estava trinchando o assado e reconheceram-na imediatamente, apesar de não a verem fazia seis anos e estar muito pálida e muito mais velha. Era um sábado e os gêmeos, Jaime e Nicolás, tinham saído do internato para passar o fim de semana com a família, de modo que também estavam ali. O seu testemunho é muito importante, porque eram os únicos membros da família que viviam afastados por completo da mesa de pé-de-galo, preservados da magia e do espiritismo pelo rígido colégio inglês. Primeiramente, sentiram um frio súbito na sala de jantar e Clara mandou fechar as janelas, porque pensou que era uma corrente de ar. Logo a seguir ouviram o tilintar das chaves e quase em seguida abriu-se a porta e apareceu Férula, silenciosa e com uma expressão distante, ao mesmo tempo que a Ama entrava pela porta da cozinha, com a travessa da salada. Esteban Trueba ficou com a faca e o garfo de trinchar no ar, paralisado pela surpresa e os três meninos gritaram, tia Férula! quase em uníssono. Blanca levantou-se para ir ao seu encontro, mas Clara, que se sentava ao seu lado, estendeu a mão e segurou-a por um braço. Na realidade, Clara foi a única que percebeu, ao primeiro olhar, do que estava passando devido à sua grande familiaridade com os assuntos sobrenaturais, apesar de que nada no aspecto da cunhada denunciasse o seu verdadeiro estado.”

Isabel Allende, em A Casa dos Espíritos

Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley

“E esse é o segredo da felicidade e da virtude: amar o que se é obrigado a fazer. Tal é a finalidade de todo o condicionamento: fazer as pessoas amarem o destino social a que não podem escapar.”

“…Mãe, monogamia, romantismo. A fonte jorra bem alto; o jato é impetuoso e branco de espuma. O impulso não tem mais que uma saída. Não é de admirar que esses pobres pré-modernos fossem loucos, perversos e desventurados. Seu mundo não lhes permitia aceitar as coisas naturalmente, não os deixava serem sãos de espírito, virtuosos, felizes. Com suas mães e seus amantes, com suas proibições, para as quais não estavam condicionados; com suas tentações e seus remorsos solitários; com todas as suas doenças e intermináveis dores que os isolavam; com suas incertezas e sua pobreza – eram forçados a sentir as coisas intensamente. E, sentindo-as intensamente (intensamente e, além disso, em solidão, no isolamento irremediavelmente individual), como poderiam ter estabilidade?…

Cordilheira, de Daniel Galera

Imaginar o inexistente é um ato de paixão pela vida, mas viver o imaginado requer um amor duradouro e, sobretudo, um compromisso. Jupiter Irrisari, Personajes 

 

Página 30

Nos poucos dias que antecederam a viagem, mesmo com as discussões, com as lágrimas, com a poeira de tragédias recentes ainda prejudicando a visibilidade em meio aos escombros, eu me pegava sorrindo por dentro nos momentos mais inesperados. Como eu podia ter me privado por tanto tempo do sabor das decisões drásticas, do prazer de derrubar uma pecinha de dominó e mudar tudo de forma irreversível? Atenta a essa sensação, eu pensava em coisas como um banho de sair numa imensa banheira de hotel, em glaciares desmoronando, em aviões realizando acrobacias, em mim mesma fazendo coisas que nunca tinha feito mas que só podem ser maravilhosas, como galopar um cavalo. 

Cinema, por Paulo Francis

Um grande filme nos marca pela afeição, quando como Vivien Leigh não quer ser mais enfermeira, em “… E o vento levou” e sai na praça cheia de mortos e feridos do Sul confederado. 

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Ou quando Judy Garland, com Totó, seu cachorrinho, sai do tufão no que não sabe ser a Terra de Oz e diz “Isso não é Kansas, Totó”.

Essas tomadas nos habitam a alma enquanto vivemos. 

Paulo Francis, O Estado de São Paulo, 28/03/91

Capote, Truman

Extraído do livro “O Dicionário da Corte de Paulo Francis” 

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É chato ser abandonado pelo pai, ter de adotar o nome do padrasto (Capote), ter uma mãe que se envergonha do filho porque ele parece uma garota, uma mãe ninfomaníaca e alcoólatra, mas acho que Truman se saiu muito bem. Com o talento curto que a meu ver ele tinha, deixou marca profunda na literatura. Não foi o inventor da “novela não-ficção”, mas ninguém obteve tanto sucesso e repercussão com o gênero como ele, em “A sangue frio”.

“A Sangue frio” foi inspirado pelo editor da New Yorker, o legendário Willian Shawn, que fez Truman não só ir ao Kansas, estado jeca, e descrevê-lo minuciosamente e a família vitimada e os assassinos. O maior milagre que Shawn conseguiu foi fazer Truman se omitir da história, que ele conta terceira pessoa. O livro, pela sua naturalidade e fluência, pelo que conta de novo sobre a vida interiorana dos EUA, deixou todo mundo embasbacado. E Truman tocou na grandeza literária ao demonstrar como o mal é corriqueiro e rotineiro, visão em geral só acessível a gente de muito maior talento. 

Paulo Francis, Folha de São Paulo, 04/06/88

Dee Dee Ramone

Trechos retirados do livro “Mate-me por favor – Uma história sem censura do Punk (Volume 1)”, de Legs McNeil & Gillian McCain – editora L&PM Pocket.

(págs. 215/216)

RICHARD HELL: Dee Dee apareceu na audição que promovemos quando Verlaine e eu estávamos tentando achar um segundo guitarrista pro Television. Botamos anúncios, e pouca gente apareceu. Foi engraçado, não conseguimos ouvir mais de quatro ou cinco pessoas, e duas delas foram Chris Stein e Dee Dee Ramone. Isso foi antes de conhecermos qualquer um dos dois.

DEE DEE RAMONE: Tom Verlaine e Richard Hell eram umas pessoas calculistas, sérias, muito determinadas. Todos os outros estavam fazendo tudo ao acaso, mas eles eram diferentes. Pensei que fossem beatniks.

RICHARD HELL: A gente tentou mostrar uma canção pra Dee Dee Ramone, mas ele errou tudo. Ele só tocava acordes básicos, porque era tudo que sabia. Você só precisa de um dedo para tocar um acorde de compasso. E a gente dizia pra ele: “Ok, isso é um Mi”. E ele começava a tocar, e a gente dizia: “Mi”. E ele dizia: “Oh! Oh!”. E começava a tocar uma outra coisa. Era o quadro da dor. E a gente dizia: “Não. Não. Não, cara; Mi”.

Dee Dee olhava com aquele ar cômico e movia o dedo um pouquinho… A gente fazia que não balançando a cabeça, e ele movia um pouquinho mais… Ele era muito engraçado. Parecia um cachorrinho naquela audição. Mas enfim a gente teve que dizer: “Vai nos desculpar…”.

DEE DEE RAMONE: Fui chutado de lá porque não sabia tocar.

“53 COM TERCEIRA” (págs. 227/228)

MICK LEIGH: Lembro de estar dirigindo pela Rua 53 com a Terceira Avenida e ver Dee Dee Ramone parado lá. Ele estava com uma jaqueta de motoqueiro, de couro preto, a mesma que usaria depois na capa do primeiro álbum. Estava simplesmente parado lá, então saquei o que ele estava fazendo, porque sabia que aquele era o ponto dos michês gays. Ainda assim eu ficava meio chocado ao ver alguém que eu conhecia circulando por ali, tipo: “Puta merda, olha só, é Doug fazendo ponto. Ele está mesmo nessa”.

DEE DEE RAMONE: A canção “53rd & 3rd” fala por si. Tudo que escrevo é autobiográfico e muito real. Não sei escrever de outro jeito.

LEGS MCCNEIL: “53rd & 3rd” é uma canção deprimente. É sobre um cara parado na esquina da 53 com a Terceira tentando fazer programas com homens, mas ninguém nunca o pega. Daí, quando alguém pega, ele mata o viado pra provar que não é uma bichona.

DANNY FIELDS: Não creio que Dee Dee fosse michê em tempo integral e sei que ele era mais a fim de garotas do que de garotos. Acho que isto era muito moderno. Acho que todo mundo deveria ser capaz de trepar com todo mundo e que o gênero sexual deveria se o de menos. Neste sentido Dee Dee era muito moderno. Não acho que ele se envergonhasse de ter feito o que fez.

NOTA: Douglas Glenn Colvin, mais conhecido como Dee Dee Ramone, foi encontrado morto no sofá de sua casa em Hollywood pela sua esposa no dia 6 de junho de 2002, vítima de overdose, aos 50 anos. Dee Dee morreu onze semanas após a inclusão do grupo Ramones no Rock and Roll Hall of Fame.

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OS PERSONAGENS:

– CHRIS STEIN: Ex guitarrista solo do Blondie. Produziu Zombie Birdhouse, álbum solo de Iggy Pop.

– DANNY FIELDS: Ex-“Doidão da Firma” da Elektra Records. Ex-executivo da Atlantic Records. Ex-editor da Revista 16. Ex-colunista do SoHo Weekly Neews. Ex-empresário dos Stooges. Ex-empresário (com Steve Paul) de Jonathan Richman and the Modern Lovers. Ex-empresário (com Linda Stein) dos Ramones e de Steve Forbert. Atualmente empresaria o artista Paleface.

– DEE DEE RAMONE: Músico; compositor; ator; ex-baixista do Ramones; artista solo; ; co-estrela do filme Rock and Roll High Scholl.

– LEGS MCCNEIL: Escritor. Ex-punk de plantão da revista Punk. Ex-editor-sênior da revista Spin. Ex-editor-chefe da revista Nerve.

– MICK LEIGH: Músico. Irmão mais moço de Joey Ramone. Ex-guitarrista do Tangerine Puppets, banda de Joey Ramone. Ex-roadie dos Ramones. Ex-guitarrista do Birdland de Lester Bangs. Atualmente é vocalista e guitarrista do Stop.

– RICHARD HELL: Poeta; escritor; ator; ex-baixista e cantos dos Néon Boys, que se tornou Television; ex-cantor e baixista dos Heartbreakers, com Johnny Thunders; ex-vocalista e baixista do Richard Hell and the Voidoids; estrela do filme Geração Punk (Blank Generation); co-estrelou Smithreens, primeiro filme de Susan Seidelman, e fez o papel de namorado de Madonna em Procura-se Susan Desesperadamente (Desperately Seekig Susan); autor do romance Go Now.

– TOM VERLAINE: Músico; ex-colega de escola de Richard Hell; ex-guitarrista e vocalista do Television; artista solo.