“Quando a gente monta um show, não atira na plateia.”

trechos de Precisamos falar sobre o Kevin, de Lionel Shriver. 

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(…) essa é a natureza do ressentimento, a objeção que não podemos exprimir. É o silêncio, mais que a queixa, o que torna a emoção tão tóxica, como os venenos que o organismo não expele com a urina.

Até o dia 11 de abril de 1983, eu me iludia com a ideia de ser uma pessoa excepcional. Mas, desde o nascimento de Kevin, estou convencida de que somos todos provavelmente de uma profunda normalidade. (Na verdade, achar que somos excepcionais é talvez a regra geral.) Temos expectativas muito definidas sobre nós mesmos em determinadas situações – para além de expectativas; são exigências. Algumas são de pouca importância: se alguém nos fizer uma festa surpresa, ficaremos maravilhados. Outras são consideráveis: se o pai ou a mãe morre, nos sentimos muito mal. Mas, talvez, junto com essas expectativas haja o medo secreto de que acabaremos desapontando as convenções, na hora do vamos-ver.

(…) é óbvio que evitar relacionamentos por medo da perda é evitar a vida.

As crianças têm uma intuição fantástica, porque a intuição é mais ou menos tudo o que têm. Tenho certeza de que, quando eu o pegava no colo, ele detectava um certo enrijecimento em meus braços que abria o jogo. Estou convencida de que, quando eu arrulhava e sussurrava para ele, Kevin inferia, graças a um sutil exaspero em minha voz, que sussurrar e arrulhar não me vinham de forma natural, assim como também tenho certeza de que seus ouvidos precoces conseguiam isolar, daquela interminável fieira de papagaiadas lenitivas, um sarcasmo insidioso e compulsivo. Mais ainda, já que eu tinha lido — perdão, você tinha lido — que era importante sorrir para o bebê, na tentativa de provocar um outro sorriso de resposta, eu sorria e sorria, sorria até ficar com o rosto doendo, mas, quando meu rosto ficava dolorido, estou certa de que ele sabia. Toda vez que eu me forçava a sorrir, era muito claro que ele sabia que eu não estava com vontade de fazer isso, porque nunca me sorriu de volta. Ele ainda não tinha visto muitos sorrisos na vida, mas tinha visto o seu, e era suficiente para reconhecer que, comparativamente, havia algo errado com o da mamãe.

Tornei-me uma daquelas pessoas de quem eu sentia pena. E continuo sentindo. Mais que nunca.

Veja só, tudo o que me fazia bonita era intrínseco à maternidade, e até mesmo o meu desejo de que os homens me considerassem atraente era uma maquinação do corpo projetada para expelir seu próprio substituto.

Diante da televisão, cutucando um frango, preenchendo as respostas mais simples das palavras do Times, muitas vezes tenho a sensação incômoda de estar à espera de algo. Não falo daquela coisa clássica de esperar que a vida comece, feito o carinha na linha de largada que não escutou o disparo. Não. Falo de esperar algo específico, uma batida na porta, e essa sensação se torna às vezes por demais insistente. Hoje voltou com força total. De orelha em pé, alguma coisa dentro de mim, a noite toda, todas as noites, espera você voltar para casa.

Você emburrava. Calava a boca se eu me servisse de uma segunda taça de vinho, e seus olhares de reprovação arruinavam o prazer (como aliás era a intenção). Ranzinza, você resmungava que, no meu lugar, você pararia de beber, e sim, durante anos, se necessário fosse — e quanto a isso eu não tinha dúvida. Eu permitiria que a procriação influenciasse nosso comportamento; você queria que ela ditasse nosso comportamento. Se isso lhe parece uma distinção sutil, é tão sutil quanto a noite e o dia.

Falemos um pouco sobre o poder. Na constituição política de uma casa, diz o mito que os pais têm uma quantidade desproporcional dele. Eu já não tenho tanta certeza. Os filhos? Eles podem nos dar muitos desgostos, para começo de conversa. Eles podem nos envergonhar, podem nos levar à falência e eu posso dar meu testemunho pessoal de que são capazes de nos fazer desejar nunca termos nascido. Que medidas tomar? Impedi-los de ir ao cinema. Mas como? Com o que sustentamos nossas proibições, se o jovem continuar, belicoso, a caminho da porta? A dura verdade é que os pais são como os governos: mantemos nossa autoridade através da ameaça, explícita ou implícita, de força física. Uma criança faz o que nós lhe dizemos para fazer porque — para ir direto ao ponto — podemos lhe quebrar o braço.

Antes de me condenar por completo, eu lhe peço que compreenda o quanto eu estava tentando ser uma boa mãe. Porém, tentar ser uma boa mãe pode estar tão distante de sê-lo quanto tentar se divertir está de se divertir de fato.

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O dicionário da corte de Paulo Francis (parte 2)

DROGAS

Droga é vocação, necessidade temperamental. E há tantas à venda, legalmente, de álcool a pílulas, que é ridículo proibir as outras. Olha, há gente que se destrói com drogas, mas tanto faz que sejam legais ou ilegais. Há gente que toma drogas uma vez ou outra, sem qualquer efeito maior. E há quem não goste. (FOLHA DE SÃO PAULO, 2/8/86) 

Tomei todas as drogas, nunca me viciei em nenhuma e todas me deram o maior barato. Nunca senti vontade de atrelar minha vida a uma substância, por uma falsa euforia. (FSP, 13/8/89)

 

BOB DYLAN

“O Guardian” comparou Dylan nos anos 60 a Mozart. WAAAAAL, bebe-se à beça no almoço na Inglaterra, e é à tarde que se escrevem editoriais em todo o mundo.

 

EDUCAÇÃO

Devemos ser humilhados publicamente no colégio, em nossas fraquezas. É só assim que nos fortalecemos para enfrentar as possíveis humilhações sérias da vida. Nos colégios onde estive, os bobos eram tratados de maneira grosseiríssima e jocosa pelos mais inteligentes. Não tira pedaço. Personalidades são forjadas neste tipo de fornalha, e não em fingir que a vida é um constante fuga do que nos aflige. (O ESTADO DE SÃO PAULO, 2/12/93)

da série: poesias que amo.

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Sete anos de pastor Jacob servia
por Luís Vaz de Camões 

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: — Mais servira, se não fora
Pera tão longo amor tão curta a vida!

A culpa foi minha, chorava ela, e era verdade, não se podia negar, mas também é certo, se isso lhe serve de consolação, que se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que cá já não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala, Será, mas este homem está morto e é preciso enterrá-lo.

página 84, Ensaio Sobre a Cegueira, Saramago.

Aos Desnamorados

Em 2007 eu publiquei no meu ~ fotolog ~ esse textinho sobre “desnamorados”. Seis anos depois, ele ainda vale. 

– 
A todos nós, eles, elas, eu, tu, vós, e quem seja mais… ou menos.

Aos desnamorados por convicção, por opção, por falta de opção, por destino, por escolha, por amor próprio, por falta de amor, por excesso dele, por descaso, pelo acaso, por conveniência ou por falta dela, por motivo nenhum, por todos os motivos, por desesperança, pela espera, por crença, por falta de fé, por tudo e por nada.

Que nosso desnamoro dure a eternidade do nosso não querer, que seja bom enquanto for, que vá quando chegar sua hora. Que não seja triste e, se for, que não seja dramático. Que não seja solidão e, se for, que não seja desespero. 

Ao nosso desnamoro, os dias de vivências compartilhadas ainda assim.
Ao nosso desnamoro em dias de desamor. 

– 

ps: Na época, eu o creditei apenas à “Cynara”. Não lembro quem é Cynara, infelizmente.

ps 2: posso dizer que 2007 foi um dos melhores anos da minha vida. Passei no vestibular, tive um semestre de férias, fui morar sozinha, comecei a faculdade, a trabalhar, a pagar minhas contas, vivi um sem fim de coisas pela primeira vez, inclusive namorar e amar, logo depois de publicar esse texto. 

Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago

(…) fizemos dos olhos uma espécie de espelhos virados para dentro, com o resultado, muitas vezes, de mostrarem eles sem reserva o que estávamos tratando de negar com a boca. ~ página 26

Se não se pretender reduzi-la a uma definição primária, o que finalmente se deverá dizer dela, em lato sentido, é que vive como lhe apetece e ainda por cima tira daí todo o prazer que pode. ~ página 31

 

Sobre Férula

“Ao longo de tantos anos de solidão e tristeza tinha ido decantando as emoções e limpando os sentimentos, até os reduzir a umas poucas terríveis e magníficas paixões, que a ocupavam por completo. Não tinha capacidade para as pequenas perturbações, para os rancores mesquinhos, as invejas dissimuladas, as obras de caridade, os carinhos mornos, a cortesia amável ou as considerações citadinas. Era um desses seres nascidos para a grandeza de um só amor, para o ódio exagerado, para a vingança apocalíptica e para o heroísmo mais sublime, mas não conseguiu realizar seu destino à medida da sua romântica vocação, e esse destino decorreu chato e cinzento, entre as paredes de um quarto de enferma, em míseros asilos, em tortuosas confissões, onde essa mulher grande, opulenta, de sangue ardente, feita para a maternidade, para a abundância, a ação e o ardor, se foi consumindo.”

 

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“Todos os que viveram aquele momento, dizem que era por volta das oito da noite, quando apareceu Férula, sem que nada fizesse prever a sua chegada. Todos puderam vê-la com a blusa engomada, o molho de chaves à cintura e o coque de solteirona, tal como a tinham visto sempre em casa. Entrou pela porta da sala de jantar no momento em que Esteban estava trinchando o assado e reconheceram-na imediatamente, apesar de não a verem fazia seis anos e estar muito pálida e muito mais velha. Era um sábado e os gêmeos, Jaime e Nicolás, tinham saído do internato para passar o fim de semana com a família, de modo que também estavam ali. O seu testemunho é muito importante, porque eram os únicos membros da família que viviam afastados por completo da mesa de pé-de-galo, preservados da magia e do espiritismo pelo rígido colégio inglês. Primeiramente, sentiram um frio súbito na sala de jantar e Clara mandou fechar as janelas, porque pensou que era uma corrente de ar. Logo a seguir ouviram o tilintar das chaves e quase em seguida abriu-se a porta e apareceu Férula, silenciosa e com uma expressão distante, ao mesmo tempo que a Ama entrava pela porta da cozinha, com a travessa da salada. Esteban Trueba ficou com a faca e o garfo de trinchar no ar, paralisado pela surpresa e os três meninos gritaram, tia Férula! quase em uníssono. Blanca levantou-se para ir ao seu encontro, mas Clara, que se sentava ao seu lado, estendeu a mão e segurou-a por um braço. Na realidade, Clara foi a única que percebeu, ao primeiro olhar, do que estava passando devido à sua grande familiaridade com os assuntos sobrenaturais, apesar de que nada no aspecto da cunhada denunciasse o seu verdadeiro estado.”

Isabel Allende, em A Casa dos Espíritos

Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley

“E esse é o segredo da felicidade e da virtude: amar o que se é obrigado a fazer. Tal é a finalidade de todo o condicionamento: fazer as pessoas amarem o destino social a que não podem escapar.”

“…Mãe, monogamia, romantismo. A fonte jorra bem alto; o jato é impetuoso e branco de espuma. O impulso não tem mais que uma saída. Não é de admirar que esses pobres pré-modernos fossem loucos, perversos e desventurados. Seu mundo não lhes permitia aceitar as coisas naturalmente, não os deixava serem sãos de espírito, virtuosos, felizes. Com suas mães e seus amantes, com suas proibições, para as quais não estavam condicionados; com suas tentações e seus remorsos solitários; com todas as suas doenças e intermináveis dores que os isolavam; com suas incertezas e sua pobreza – eram forçados a sentir as coisas intensamente. E, sentindo-as intensamente (intensamente e, além disso, em solidão, no isolamento irremediavelmente individual), como poderiam ter estabilidade?…

Cordilheira, de Daniel Galera

Imaginar o inexistente é um ato de paixão pela vida, mas viver o imaginado requer um amor duradouro e, sobretudo, um compromisso. Jupiter Irrisari, Personajes 

 

Página 30

Nos poucos dias que antecederam a viagem, mesmo com as discussões, com as lágrimas, com a poeira de tragédias recentes ainda prejudicando a visibilidade em meio aos escombros, eu me pegava sorrindo por dentro nos momentos mais inesperados. Como eu podia ter me privado por tanto tempo do sabor das decisões drásticas, do prazer de derrubar uma pecinha de dominó e mudar tudo de forma irreversível? Atenta a essa sensação, eu pensava em coisas como um banho de sair numa imensa banheira de hotel, em glaciares desmoronando, em aviões realizando acrobacias, em mim mesma fazendo coisas que nunca tinha feito mas que só podem ser maravilhosas, como galopar um cavalo. 

Cinema, por Paulo Francis

Um grande filme nos marca pela afeição, quando como Vivien Leigh não quer ser mais enfermeira, em “… E o vento levou” e sai na praça cheia de mortos e feridos do Sul confederado. 

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Ou quando Judy Garland, com Totó, seu cachorrinho, sai do tufão no que não sabe ser a Terra de Oz e diz “Isso não é Kansas, Totó”.

Essas tomadas nos habitam a alma enquanto vivemos. 

Paulo Francis, O Estado de São Paulo, 28/03/91