Evelyn Nesbit e “O Crime do Século” (de Ragtime)

“Na cidade de Nova York, os jornais fervilhavam com a morte do famoso arquiteto Stanford White por Harry K. Thaw, excêntrico herdeiro de uma fortuna em minas de carvão e estradas de ferro. Harry K. Thaw era casado com Evelyn Nesbit, célebre beldade que fora amante de Stanford White. O crime ocorreu no terraço do Madison Square Garden, na 26th Street, espetacular edifício de tijolos amarelos e terracota, ocupando um quarteirão inteiro, e que fora desenhado em estilo sevilhano pelo próprio White. Foi na estreia de um musical intitulado Mamzelle Champagne, e, enquanto o coro cantava e dançava, o excêntrico herdeiro, trajando naquela noite de verão chapéu de palha e sobretudo preto, sacou uma pistola e atingiu o famoso arquiteto com três disparos na cabeça. No terraço. Ouviram-se gritos. Evelyn desmaiou. Ela foi modelo de um artista com a idade de 15 anos. Usava roupas de baixo brancas. Era habitualmente açoitada pelo marido. Certa vez, encontrou por acaso Emma Goldman, a revolucionária. Goldman agrediu-a verbalmente. (…) E, embora os jornais chamassem ao assassinato “O Crime do Século”, Goldman sabia que se estava apenas em 1906 e que restavam ainda 94 anos pela frente.” pág 13

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“Amavam-se devagar e sinuosamente, impelindo-se um ao outro a estados tão sutis de orgasmo que encontravam poucos motivos para conversar no restante do tempo que passavam juntos. Era característico de Evelyn não poder resistir a alguém que se sentisse tão fortemente atraído por ela.” pág 93

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“Sentada no banco das testemunhas, descreveu-se aos 15 anos erguendo as pernas num balanço de veludo vermelho, enquanto um rico arquiteto continua a respiração à vista de suas coxas. Resoluta, manteve-se de cabeça erguida. Vestia-se com gosto impecável. Seu depoimento criou a primeira deusa do sexo americana. Dois setores da sociedade perceberam-no. O primeiro foi a comunidade empresarial, especificamente um grupo de contabilistas e fabricantes de capas e ternos, que também se imiscuía na exibição de quadros em movimento, ou cinematógrafo, como era chamado. Alguns notaram que a foto de Evelyn na primeira página de um jornal fazia esgotar a edição e compreenderam que existia um processo de ampliação, pelo qual as notícias fixavam determinados indivíduos na mente do público em proporção mais ampla que o natural. Esses eram os indivíduos que representavam uma característica humana desejável a ponto de excluir todas as outras. Os homens de negócios perguntavam-se se poderiam criar tais elementos, não a partir das casualidades do noticiário, e sim da deliberada manipulação de seu próprio meio. Se o conseguissem, mais pessoas pagariam para ver shows de cinematógrafo. Assim, Evelyn forneceu inspiração para o conceito do sistema de estrelato do cinema e modelo de todas as deusas do sexo, de Theda Bara a Marilyn Monroe.” pág 94

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“Em Seattle, por exemplo, Emma Goldman falou a um grupo de trabalhadores da indústria local, citando Evelyn Nesbit como filha da classe operária, cuja vida constituía um exemplo de como as filhas e irmãs dos pobres eram usadas para o prazer dos ricos. Os homens da platéia caçoaram, berraram observações grosseiras e desataram a rir. (…) Goldman enviou uma carta a Evelyn dizendo: Com freqüência me perguntam ‘Como podem as massas deixarem-se explorar pela minoria?’ A resposta é: sendo persuadidas a identificar-se com ela. Levando pra casa um jornal com sua foto e entregando-o à mulher, uma exausta égua de carga com veias varicosas, ele sonha não com justiça e sim com riqueza.” pág 95

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Freud visita a América (de Ragtime)

“Claro que a primeira recepção de Freud na América não foi promissora. Alguns alienistas profissionais compreendiam sua importância, mas para o público em geral não passava de uma espécie de sexólogo alemão, um expoente do amor livre, que usava grandes palavras para falar de coisas sujas. Uma década pelo menos transcorreria antes que Freud se vingasse, vendo suas ideias começarem a destruir para sempre o sexo na América.” – pág 44

“Não conseguira habituar-se à alimentação e à escassez de banheiros públicos na América e acreditava que a viagem arruinara seu estômago e sua bexiga. Toda a população parecia-lhe hiperativa, espalhafatosa e grosseira. A vulgar apropriação, em larga escala, da arte e da arquitetura européias, sem levar em conta período ou país, era espantosa. Vira em nossa descuidada mistura de enorme riqueza e enorme pobreza o caos de uma entrópica civilização europeia. Instalado em seu confortável estúdio de Viena, sentiu-se satisfeito por estar de volta. E disse a Ernest Jones: a América é um erro, um erro gigantesco.” – pág 48

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Ragtime, E. L. Doctorow

SOBRE TRABALHO INFANTIL

“Nas fazendas de tabaco, os negros colhiam folhas 13 horas por dia, ganhando 6 centavos a hora, fosse homem, mulher ou criança. As crianças não sofriam discriminação. Eram apreciadas onde quer que se empregassem. Não se queixavam, conforme era hábito entre os adultos. Os patrões gostavam de considerá-las elfos felizes. Caso surgisse problema a respeito do emprego de crianças, referia-se apenas a sua resistência física. Eram mais ágeis que os adultos, mas tendiam, nas últimas horas do dia, a perder certo grau de eficiência. Nas fábricas de enlatados e nas usinas, em geral era nesse período que perdiam os dedos, imprensavam as mãos, ou esmagavam as pernas; precisavam ser orientadas no sentido de permanecer alertas. Nas minas trabalhavam na triagem do carvão e eram às vezes sufocadas nas rampas; avisavam-nas então que se mantivessem atentas. (…) Aparentemente havia quotas para tais coisas. Quotas para a morte pela fome.” pág 49

 

SOBRE CERTAS COISAS QUE NUNCA MUDAM

“Entrou em moda venerar o pobre. Em palácios de Nova York e Chicago organizavam-se bailes da pobreza e os convidados compareciam vestidos de andrajos, comiam em pratos de estanho e bebiam em canecas de esmalte descascado. Os salões eram decorados de modo a parecerem minas, com travas aparentes, trilhas e lanternas portáteis. Firmas de cenários teatrais eram contratadas para transformar jardins em sujas fazendas e salas de jantar em fábricas de algodão. Os convidados fumavam pontas de charuto oferecidas em bandejas de prata. Menestréis pintavam o rosto de preto. Uma anfitriã fez convites para um baile nas docas. Os convidados compareceram com longos aventais e cabeça coberta por gorro branco. Jantou-se e dançou-se sob as carcaças ensangüentadas dos bois, movimentadas ao redor da sala por meio de roldanas. Entranhas espalhavam-se pelo chão. Os lucros foram revertidos para obras de caridade.” pág 50

 

SOBRE INJUSTIÇA

“… será a injustiça sofrida um universo visto ao espelho, com as leis da lógica e os princípios da razão opostos aos da civilização?” pág 279

Quem por aqui já leu o livro "Ragtime", de E. L. Doctorow? Esse foi o livro enviado em agosto pela TAG e também um dos mais vendidos nos Estados Unidos em 1975, ano em que foi lançado. 🎹📚 #taglivros

Outlander – A Viajante do Tempo, Diana Gabaldon

 

“Certa vez, viajando à noite, adormeci no banco do carona de um carro em movimento, embalada pelo barulho e pelo deslocamento, até à ilusão de uma serena ausência de peso. O motorista do carro entrou numa ponte a uma velocidade alta demais e perdeu o controle do carro. Acordei do meu sonho de estar flutuando direto no clarão de faróis e na sensação nauseante de estar caindo em alta velocidade. Essa transição brusca é o mais próximo que posso chegar para descrever a sensação que experimentei, mas ainda deixa dolorosamente a desejar.” – pág 54

“Parecia inconcebível, mas todas as evidências indicavam que eu estava em algum lugar onde os costumes e a política do final do século XVIII ainda vigoravam. Eu teria imaginado que tudo não passava de algum tipo de espetáculo à fantasia, se não fosse pelos ferimentos do jovem a quem chamavam de Jamie. Aquele ferimento fora realmente provocado por algo muito semelhante a um tiro de mosquete, a julgar pelos estragos que deixara.” – pág 75

“Você esquece a sua vida após um tempo. Coisas que lhe são queridas são como um colar de pérolas. Corte-o e elas se espalham pelo chão, indo para cantos escuros, não sendo mais encontradas. Então você segue em frente. E um dia acaba esquecendo como as pérolas eram.”

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Quase Memória, Carlos Heitor Cony

“Estou sem fome, apensas cansado. Paro o carro diante de um bar aberto na orla, a essa hora devem servir pizzas ou sanduíches. O calçadão de Copacabana, decadente e vazio, só tem agora alguns travestis que caçam fregueses. Apesar de a noite estar bonita, nem quente nem fria, sinto sordidez na pizza, no calçadão, afinal, eu passara as últimas horas numa viagem pela memória e tudo aqui fora ficou absurdo, irreal. Ou real demais.

Amanhã… amanhã vou guardá-lo, tal como o pai o deixou. Quando digo “amanhã” nesse tom (amanhã…) penso nele quando dizia, cada noite, antes de dormir: “Amanhã farei grandes coisas!” Mesmo quando não fazia nada, para ele o viver, o chegar à outra noite e se prometer que no dia seguinte faria grandes coisas era, em si, uma grande coisa.

A promessa feita a mim mesmo de guardar o embrulho me tranquiliza, já não sinto o cansaço e não gostaria de encerrar esse dia, pudesse, eu o prolongaria, até o infinito da memória.”

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O Poderoso Chefão, Mario Puzo

“Don Vito Corleone era um homem a quem todo mundo recorria em busca de auxílio, e quem o fizesse jamais ficava desapontado. Ele não fazia promessas ocas, nem apresentava à desculpa covarde de que as mãos estavam amarradas por forças mais poderosas que ele mesmo. Não era preciso que ele fosse amigo da pessoa, nem mesmo era importante que a pessoa não tivesse meios com que pagar-lhe o favor recebido. Apenas uma coisa era necessária, Que a pessoa, a própria pessoa, proclamasse sua amizade. Então não importava quão pobre ou impotente fosse o suplicante. Don Corleone se encarregaria entusiasticamente de resolver-lhe os problemas. E não permitiria que coisa alguma impedisse a solução do infortúnio desse indivíduo. Sua recompensa? A amizade, o respeitoso título de Don e, às vezes, a saudação mais carinhosa de Padrinho… Compreendia-se, era apenas uma questão de cortesia proclamar que o indivíduo estava em dívida para com ele e que tinha o direito de convocar a pessoa, a qualquer momento, para saldar a dívida por meio de algum pequeno serviço”.

“Don Corleone recebia todo mundo – rico e pobre, poderoso e humilde – com igual demonstração de afeto. Não menosprezava ninguém. Esse era o seu caráter”.

“Ele [Michael] possuía a força tranquila e a inteligência de seu grande pai, o instinto inato para agir de tal maneira que os homens não tinham outro jeito, senão respeitá-lo”.

“Aprendera há muito que a sociedade impõe insultos que devem ser suportados, confortados pelo conhecimento de que neste mundo chega o momento em que o mais humilde dos homens, se conservar os olhos abertos, pode vingar-se do mais poderoso”.

“Nós nos conhecemos há muitos anos, você e eu – disse ele ao agente funerário -, mas até o dia de hoje você nunca tinha vindo a mim pedir conselho ou ajuda. Não me lembro da última vez que você me convidou a tomar um café em sua casa, embora a minha mulher seja madrinha de sua única filha. Vamos ser francos. Você rejeitou minha amizade. Você tinha medo de me dever alguma coisa… Agora, você vem a mim e diz: “Don Corleone, faça justiça”. E você não pede com respeito. Não me oferece sua amizade… Se você tivesse vindo me pedir justiça, essa escória que desgraçou sua filha estaria hoje chorando lágrimas de amargura. Se por infelicidade, um homem honesto como você fizesse inimigos, eles se tornariam meus inimigos e então, acredite em mim, eles teriam medo de você”.

“Não confio que a sociedade nos proteja, não tenho a intenção de colocar meu destino nas mãos de homens cuja única qualificação consiste em procurar convencer um grupo de pessoas a votar neles.”

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O Iluminado, Stephen King

“O mundo é um lugar duro, Danny. Não se importa com a gente. Não odeia a você, nem a mim, mas também não morre de amor por nós. Coisas terríveis acontecem no mundo, e são coisas que ninguém pode explicar. Indivíduos bons morrem de forma ruim e dolorosa e deixam as pessoas que os amam sozinhas. Às vezes, parece que só as pessoas ruins permanecem sadias e prósperas. O mundo não ama você, mas sua mãe o ama e eu também.”

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