Limonov, Emmanuel Carrère

“Limonov foi delinquente na Ucrânia, ídolo do underground soviético; mendigo, depois mordomo de um bilionário em Manhattan; escritor da moda em Paris; soldado perdido nos Bálcãs; e agora, no imenso caos do pós-comunismo, velho chefe carismático de um partido de jovens desesperados. Ele mesmo se vê como herói, podemos considerá-lo um tratante.” pág 28

“Vinte milhões de russos morreram na guerra, mas outros vinte milhões de sem-teto enfrentam o pós-guerra. A maioria das crianças não tem mais pai, a maioria dos homens ainda vivos está inválida. Em cada esquina esbarra-se com manetas ou pernetas ou paralíticos. Por toda parte vêem-se bandos de crianças abandonadas, filhos de pais mortos na guerra ou de  inimigos do povo, crianças famintas, ladras, regredidas ao estado selvagem, deslocando-se em hordas perigosas e em cujo benefício a idade da responsabilidade criminal, isto é, da pena de morte, foi reduzida para doze anos.” Pág 35

“… no mundo dos ‘decadentes’ de Kharkov, o gênio deve não apenas ser desconhecido como também desvairado, delirante, socialmente desajustado. (…) Me dou conta de que eu mesmo pratiquei, até uma idade relativamente avançada, o culto romântico da loucura. Passou, graças a Deus. A experiência me ensinou que esse romantismo é uma estupidez, que a loucura é o que há de mais triste e melancólico no mundo.” Pág 62

“Um francês chegando pela primeira vez a Nova York não se surpreende ou, quando isso acontece, é porque a cidade é muito parecida com o que ele viu nos filmes. Já para os filhos da Guerra Fria e de um país onde os filmes americanos são proscritos, todas aquelas imagens são novas: o vapor subindo das bocas de lobo; as escadas de metal agarradas como aranhas no flanco dos prédios de tijolo encardido; as placas luminosas acavalando-se na Broadway, a skyline vista de um gramado do Central Park; a  animação ininterrupta; as sirenes dos carros de polícia; os táxis amarelos, os engraxates negros; as pessoas que falam sozinhas andando na rua, sem que ninguém interfira para dar um basta naquilo. Para quem vem de Moscou, é como passar de um filme em preto e branco para um em cores.” Pág 107

“O hotel Winslow é um antro de russos, judeus na maioria, que, fazem parte da ‘terceira emigração’, a dos anos 1970, e os quais ele é capaz de reconhecer na rua, mesmo de costas, pela aura de lassidão e infortúnio que deles emana. (…) Em Moscou ou Leningrado, eles eram poetas, pintores, músicos, intrépidos under que se mantinham aquecidos nas cozinhas. Agora, em Nova York, são lavadores de prato, pintores de prédio, freteiros, e não adianta eles tentarem continuar a acreditar no que acreditavam no começo, que aquilo é provisório, que um dia seus verdadeiros talentos serão reconhecidos; sabem claramente que não é verdade. Então, sempre entre eles, sempre em russo, enchem a cara, se lamentam, falam do país, sonham que recebem autorização para voltar, mas não os deixarão voltar: morrerão perseguidos e ludibriados.” Pág 123

“A vantagem das pessoas que distribuem panfletos, sejam elas de esquerda ou testemunhas de Jeová, é que tem o hábito de levar foras e apreciam quando alguém se dispõe a conversar.” Pág 131

“Eduard é a favor da revolução mundial. Por princípio, está do lado dos vermelhos, dos negros, dos árabes, dos veados, dos mendigos, dos drogados, dos porto-riquenhos, de todos aqueles que, sem nada a perder, são, ou pelo menos deveriam ser, igualmente adeptos da revolução mundial. (…) Impressionada com o seu fervor, ela o convida para uma manifestação de apoio ao povo palestino, advertindo-o: pode ser perigoso. Ótimo, empolga-se Eduard, mas a manifestação, no dia seguinte, decepciona-o horrivelmente. Não é que falte veemência aos discursos, o problema é que no fim todo mundo se despede, as pessoas voltam pra casa ou, em pequenos grupos, vão confabular em cafeterias, sem outra perspectiva a não ser uma nova manifestação, no mês seguinte.

– Não compreendo – diz Carol, perplexa. – O que você queria?

– Ora, que ficássemos juntos. Que fôssemos arranjar armas e atacássemos uma repartição. Ou desviássemos um avião. Ou cometêssemos um atentado. Enfim, não sei, alguma coisa.” Pág 131

“Penso que todos os criados sonham mais ou menos com isso, trepar na cama dos patrões, que alguns o fazem e que as pessoas que empregam criados, quando não são idiotas, têm conhecimento do fato e fecham os olhos. O essencial é que tudo fique bem arrumado depois, que os lençóis girem na máquina de lavar, e quanto a isso ele podia confiar em Eduard.” Pág 151

“O câncer não respeita o dinheiro. Ofereça bilhões, ele não recuará. E é ótimo que assim seja: pelo menos é uma coisa diante da qual todo mundo está em pé de igualdade.” LIMONOV pág 153

“Antoine Vitez já esteve por diversas vezes na União Soviética e estima que ali é a verdadeira vida: grave, adulta, pesando seu peso real. Os rostos, diz ele, são rostos de verdade, escalavrados, laminados, ao passo que no Ocidente só se vêem caras de bebês. No Ocidente, tudo é permitido e nada tem importância, aqui é o contrário: nada é permitido, tudo tem importância, e Vitez parece achar muito melhor desse jeito. Por conseguinte, é só da boca pra fora que aprova as mudanças em curso. Evidentemente, não é possível objetar contra a liberdade, tampouco contra o conforto, mas não se deveria perder a alma do país com isso.” Pág 205

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Freud visita a América (de Ragtime)

“Claro que a primeira recepção de Freud na América não foi promissora. Alguns alienistas profissionais compreendiam sua importância, mas para o público em geral não passava de uma espécie de sexólogo alemão, um expoente do amor livre, que usava grandes palavras para falar de coisas sujas. Uma década pelo menos transcorreria antes que Freud se vingasse, vendo suas ideias começarem a destruir para sempre o sexo na América.” – pág 44

“Não conseguira habituar-se à alimentação e à escassez de banheiros públicos na América e acreditava que a viagem arruinara seu estômago e sua bexiga. Toda a população parecia-lhe hiperativa, espalhafatosa e grosseira. A vulgar apropriação, em larga escala, da arte e da arquitetura européias, sem levar em conta período ou país, era espantosa. Vira em nossa descuidada mistura de enorme riqueza e enorme pobreza o caos de uma entrópica civilização europeia. Instalado em seu confortável estúdio de Viena, sentiu-se satisfeito por estar de volta. E disse a Ernest Jones: a América é um erro, um erro gigantesco.” – pág 48

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Ragtime, E. L. Doctorow

SOBRE TRABALHO INFANTIL

“Nas fazendas de tabaco, os negros colhiam folhas 13 horas por dia, ganhando 6 centavos a hora, fosse homem, mulher ou criança. As crianças não sofriam discriminação. Eram apreciadas onde quer que se empregassem. Não se queixavam, conforme era hábito entre os adultos. Os patrões gostavam de considerá-las elfos felizes. Caso surgisse problema a respeito do emprego de crianças, referia-se apenas a sua resistência física. Eram mais ágeis que os adultos, mas tendiam, nas últimas horas do dia, a perder certo grau de eficiência. Nas fábricas de enlatados e nas usinas, em geral era nesse período que perdiam os dedos, imprensavam as mãos, ou esmagavam as pernas; precisavam ser orientadas no sentido de permanecer alertas. Nas minas trabalhavam na triagem do carvão e eram às vezes sufocadas nas rampas; avisavam-nas então que se mantivessem atentas. (…) Aparentemente havia quotas para tais coisas. Quotas para a morte pela fome.” pág 49

 

SOBRE CERTAS COISAS QUE NUNCA MUDAM

“Entrou em moda venerar o pobre. Em palácios de Nova York e Chicago organizavam-se bailes da pobreza e os convidados compareciam vestidos de andrajos, comiam em pratos de estanho e bebiam em canecas de esmalte descascado. Os salões eram decorados de modo a parecerem minas, com travas aparentes, trilhas e lanternas portáteis. Firmas de cenários teatrais eram contratadas para transformar jardins em sujas fazendas e salas de jantar em fábricas de algodão. Os convidados fumavam pontas de charuto oferecidas em bandejas de prata. Menestréis pintavam o rosto de preto. Uma anfitriã fez convites para um baile nas docas. Os convidados compareceram com longos aventais e cabeça coberta por gorro branco. Jantou-se e dançou-se sob as carcaças ensangüentadas dos bois, movimentadas ao redor da sala por meio de roldanas. Entranhas espalhavam-se pelo chão. Os lucros foram revertidos para obras de caridade.” pág 50

 

SOBRE INJUSTIÇA

“… será a injustiça sofrida um universo visto ao espelho, com as leis da lógica e os princípios da razão opostos aos da civilização?” pág 279

Quem por aqui já leu o livro "Ragtime", de E. L. Doctorow? Esse foi o livro enviado em agosto pela TAG e também um dos mais vendidos nos Estados Unidos em 1975, ano em que foi lançado. 🎹📚 #taglivros