Norma Jeane

Marilyn Monroe percebeu bem cedo que a trágica história de sua infância guardava o poder de derrubar reservas alheias, sensibilizar os corações duros de Hollywood, abrir caminhos e conquistar a devoção de todos, transformando possíveis adversários em fervorosos admiradores. Tal percepção ocorreu quando ela decidiu ser atriz de cinema: tinha acabado de descobrir que a combinação de um corpo bem formado e um passado infeliz era capaz de despertar nos homens tanto o lado de amante quanto o paternal. Amigos íntimos veriam, nesta percepção, vocação para extrair da própria desgraça uma maneira de se promover e tornar-se famosa, uma espécie de suprimento para carências mais profundas e sem solução. Estavam rigorosamente certos.

A pequena Norma Jeane
A pequena Norma Jeane

O fato é que a infância de Marilyn Monroe, ou Norma Jeane Baker, como foi batizada ao nascer em 1º de junho de 1926, oferece as pistas necessárias para que se compreenda a trajetória da atriz. A propensão genética á loucura aliada aos primeiros anos de vida com uma mãe negligente, pai ausente e uma avó esquizofrênica, morando em lares adotivos e orfanatos, tudo isso são traços reveladores da personalidade instável que o acaso moldou para a pequena Norma.

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Na falta de uma figura paterna sobre a qual depositar confiança, a própria Norma resolveu escolher uma de sua preferência: Clark Gable. Durante muitos anos, até trabalhar ao seu lado em Os Desajustados (The Misfits), Marilyn veria em Gable a figura de um pai. Sem nunca ter encontrado de fato o pai real, ela buscou inconscientemente, no casamento com dois homens onze anos mais velhos, a segurança paternal inexistente na sua infância.

Monroe e Gable em Os Desajustados
Monroe e Gable em Os Desajustados

A insistência algo artificial em repetir o caso de um estupro, que ela teria sofrido pouco antes de completar nove anos, parecia querer provar ao mundo que a sua sexualidade transbordante nada mais era que um produto de uma experiência precoce, nascida da ingenuidade de uma garota que, sem outra alternativa, se deixou possuir no claro de um quarto de homem de meia-idade. Fantasioso ou verídico, o episódio foi recontado por Marilyn até sua morte, sempre alcançando a finalidade de conquistar simpatias.

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O cinema de atriz morreu com Marilyn

Ao mesmo tempo em que contribuiu para recuperar a máquina de Hollywood, Marilyn predispôs as suas engrenagens a uma pane sem conserto, pelo simples fato de carregar consigo a semente de uma antítese.

Sua morte, em 1962, em consequência de profundo estado de melancolia, foi uma dose letal para o sistema na medida em que contestou, com a força dramática da tragédia, o princípio de que toda estrela é o que parece ser: feliz com a vida, estável nos amores e auto-suficiente na profissão.

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Infeliz, instável e dependente, Marilyn só teve a sua verdadeira história revelada após a fatídica madrugada de cinco de agosto, quando a imprensa – que até então a vendera como personagem de uma novela interminável de fantasia – passou a cutucar a ferida aberta em Hollywood com interrogações do tipo: “Teria sido a atriz vítima da fábrica de sonhos que com ela produziu tantos e a ela não reservou nenhum?”

“O certo é que a estrela de cinema triunfante”, escreveu o sociólogo Edgar Morin, “a que conhecera e amara campeões, grandes escritores, artistas estrangeiros, aquela que podia ao mesmo tempo estar nua e ser rainha, aquela que, orfã, pobre e rejeitada, conquistara a adoração e a aclamação mundiais, aquela que era o sexo e alma, o erotismo e o espírito, aquela que tudo parecia possuir, Marilyn Monroe se suicida”.

Não por coincidência, o cinema de atriz morreu com Marilyn, por overdose de barbitúricos, na casinha de estilo mexicano de Brentwood. Se até a era Monroe, a produção, o roteiro, a montagem e a publicidade se voltavam exclusivamente para a performance da estrela – a única presença de real importância – a fase subsequente consagrou o filme de diretor.

O suicídio da grande namorada da América deixou desamparada uma legião de parceiros platônicos, provocou rupturas sem volta e incitou o senso crítico do espectador comum para o fato de que estrelato nada mais era que uma farsa, escondendo sob os spotlights do sucesso a fragilidade e o vazio da solidão humana. Muitas dúvidas ficaram sem respostas. Restaram ao consumidor fanático de cinema sentimentos de pena e frustração.

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Pena por Marilyn, uma mulher incompreendida, que se afundou em Nembutal, champanhe e desespero. Como entender que Marilyn pudesse sofrer e morrer por falta de amor, justamente ela que tivera em sua cama, na tela e fora dela, fetiches do poder de Clark Gable, Arthur Miller, Yves Montand e Joe Dimaggio?

Duramente questionado em superestrutura,o star system dos moldes antigos, cujo renascimento se dera com Marilyn, também com ela se encerrava – para seguir novos e diferentes rumos.

Tótens de bronze

A história do cinema apresenta-se como uma sucessão de estrelas pluridimensionais, ricas, elegantes, inacessíveis, amantes perfeitas, eternamente jovens, felizes e bem-sucedidas – das quais, certamente, Marilyn foi a última. Cada uma antecedeu ou sucedeu à outra, ao longo dos anos, em conformidade com as tendências de catarse coletiva identificadas no escuro das salas de projeção.

Na década de 10, Sarah Bernhardt, Theda Bara e Mary Pickford encarnaram as primeiras heroínas mudas e virtuosas do amor.

Sarah Bernhardt
Sarah Bernhardt
Theda Bara
Theda Bara
Mary Pickfor
Mary Pickford

Na década seguinte, Lilian Gish, Greta Garbo e Rodolfo Valentino consubstanciaram, respectivamente, arquétipos de “vamp”, de “femme fatale” e do galã viril.

Lilian Gish
Lilian Gish
Greta Garbo
Greta Garbo
Rodolfo Valentino
Rodolfo Valentino

Só a partir dos anos 30 é que os até então deuses das telas abandonaram a condição etérea de tótens de bronze para se tornarem mais terrenos, humanos e, portanto, falíveis. Iniciou-se uma fase de resignação mítica da estrela. O sexo não sumiu das telas, pelo contrário, expandiu-se para a categoria do erotismo.

A pouca frequência de público, verificada em 1947, nas salas de exibição da Europa e dos Estados Unidos, quase pôs fim à figura da estrela, que teve de ser resgatada à custa do velho e eficaz material erótico.

O par de seios volumosos de Sophia Loren, a combinação explosiva de rosto infantil e corpo voluptuoso de Brigitte Bardot e o sexo desinibido de Marilyn Monroe foram convocados a reanimar o star system.

Sophia Loren
Sophia Loren
Brigitte Bardot
Brigitte Bardot
Marilyn Monroe
Marilyn Monroe