Catelyn I | A Game of Thrones

“O rei viaja para Winterfell à sua procura” – disse Catelyn.

Ned precisou de um momento para perceber o significado daquelas palavras, mas quando as compreendeu, a escuridão abandonou os seus olhos.

“Robert vem para cá?” – Quando ela assentiu, um sorriso abriu-se em seu rosto.

Catelyn desejou poder compartilhar da alegria do marido. Mas ouvira o que se dizia pelos pátios; um lobo-gigante morto na neve, com um chifre partido na garganta. O terror retorcia-se em seu interior como uma serpente, mas forçou-se a sorrir para aquele homem que amava, aquele homem que não punha fé alguma nos sinais.

 

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Bran I | A Game of Thrones

“Lord Stark,” Jon said. It was strange to hear him call Father that, so formal. Bran looked at him with desperate hope. “There are five pups,” he told Father. “Three male, two female.”

“What of it, Jon?”

“You have five true born children,” Jon said. “Three sons, two daughters. The direwolf is the sigil of your House. Your children were meant to have these pups, my lord.

Bran saw his father’s face change, saw the other men exchange glances. He loved Jon with all his heart at that moment. Even at seven, Bran understood what his brother had done. The count had come right only because Jon had omitted himself. He had included the girls, included even Rickon, the baby, but not the bastard who bore the surname Snow, the name that custom decreed be given to all those in the north unlucky enough to be born with no name of their own.

Their father understood as well. “You want no pup for yourself, Jon?” he asked softly.

“The direwolf graces the banners of House Stark,” Jon pointed out. “I am no Stark, Father.

Their lord father regarded Jon thoughtfully. 

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– Lorde Stark – disse Jon. Era estranho ouvi-lo chamar o pai assim, de modo tão formal. Bran olhou-o com uma esperança desesperada. – Há cinco crias. Três machos e duas fêmeas.

– E então, Jon?

– O senhor tem cinco filhos legítimos – disse Jon. – Três filhos e duas filhas. O lobo gigante é o selo da sua Casa. Seus filhos estão destinados a ficar com essa ninhada, milorde.

Bran viu o rosto do pai mudar e os outros homens trocarem olhares. Naquele momento, amou Jon de todo o coração. Mesmo com seus sete anos, Bran compreendeu o que o irmão fizera. A conta estava certa apenas porque Jon se omitira. Incluíra as moças e até Rickon, o bebê, mas não o bastardo que usava o apelido Snow, o nome que, pelo costume, devia ser dado a todos aqueles que, no Norte, eram suficientemente infelizes para não possuir um nome seu.

O pai também o compreendera.

– Não quer uma cria para você, Jon? – perguntou brandamente.

– O lobo gigante honra os estandartes da Casa Stark – Jon retrucou. – Eu não sou um Stark, pai. 

O senhor seu pai o olhou, pensativo. 

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“Quando a gente monta um show, não atira na plateia.”

trechos de Precisamos falar sobre o Kevin, de Lionel Shriver. 

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(…) essa é a natureza do ressentimento, a objeção que não podemos exprimir. É o silêncio, mais que a queixa, o que torna a emoção tão tóxica, como os venenos que o organismo não expele com a urina.

Até o dia 11 de abril de 1983, eu me iludia com a ideia de ser uma pessoa excepcional. Mas, desde o nascimento de Kevin, estou convencida de que somos todos provavelmente de uma profunda normalidade. (Na verdade, achar que somos excepcionais é talvez a regra geral.) Temos expectativas muito definidas sobre nós mesmos em determinadas situações – para além de expectativas; são exigências. Algumas são de pouca importância: se alguém nos fizer uma festa surpresa, ficaremos maravilhados. Outras são consideráveis: se o pai ou a mãe morre, nos sentimos muito mal. Mas, talvez, junto com essas expectativas haja o medo secreto de que acabaremos desapontando as convenções, na hora do vamos-ver.

(…) é óbvio que evitar relacionamentos por medo da perda é evitar a vida.

As crianças têm uma intuição fantástica, porque a intuição é mais ou menos tudo o que têm. Tenho certeza de que, quando eu o pegava no colo, ele detectava um certo enrijecimento em meus braços que abria o jogo. Estou convencida de que, quando eu arrulhava e sussurrava para ele, Kevin inferia, graças a um sutil exaspero em minha voz, que sussurrar e arrulhar não me vinham de forma natural, assim como também tenho certeza de que seus ouvidos precoces conseguiam isolar, daquela interminável fieira de papagaiadas lenitivas, um sarcasmo insidioso e compulsivo. Mais ainda, já que eu tinha lido — perdão, você tinha lido — que era importante sorrir para o bebê, na tentativa de provocar um outro sorriso de resposta, eu sorria e sorria, sorria até ficar com o rosto doendo, mas, quando meu rosto ficava dolorido, estou certa de que ele sabia. Toda vez que eu me forçava a sorrir, era muito claro que ele sabia que eu não estava com vontade de fazer isso, porque nunca me sorriu de volta. Ele ainda não tinha visto muitos sorrisos na vida, mas tinha visto o seu, e era suficiente para reconhecer que, comparativamente, havia algo errado com o da mamãe.

Tornei-me uma daquelas pessoas de quem eu sentia pena. E continuo sentindo. Mais que nunca.

Veja só, tudo o que me fazia bonita era intrínseco à maternidade, e até mesmo o meu desejo de que os homens me considerassem atraente era uma maquinação do corpo projetada para expelir seu próprio substituto.

Diante da televisão, cutucando um frango, preenchendo as respostas mais simples das palavras do Times, muitas vezes tenho a sensação incômoda de estar à espera de algo. Não falo daquela coisa clássica de esperar que a vida comece, feito o carinha na linha de largada que não escutou o disparo. Não. Falo de esperar algo específico, uma batida na porta, e essa sensação se torna às vezes por demais insistente. Hoje voltou com força total. De orelha em pé, alguma coisa dentro de mim, a noite toda, todas as noites, espera você voltar para casa.

Você emburrava. Calava a boca se eu me servisse de uma segunda taça de vinho, e seus olhares de reprovação arruinavam o prazer (como aliás era a intenção). Ranzinza, você resmungava que, no meu lugar, você pararia de beber, e sim, durante anos, se necessário fosse — e quanto a isso eu não tinha dúvida. Eu permitiria que a procriação influenciasse nosso comportamento; você queria que ela ditasse nosso comportamento. Se isso lhe parece uma distinção sutil, é tão sutil quanto a noite e o dia.

Falemos um pouco sobre o poder. Na constituição política de uma casa, diz o mito que os pais têm uma quantidade desproporcional dele. Eu já não tenho tanta certeza. Os filhos? Eles podem nos dar muitos desgostos, para começo de conversa. Eles podem nos envergonhar, podem nos levar à falência e eu posso dar meu testemunho pessoal de que são capazes de nos fazer desejar nunca termos nascido. Que medidas tomar? Impedi-los de ir ao cinema. Mas como? Com o que sustentamos nossas proibições, se o jovem continuar, belicoso, a caminho da porta? A dura verdade é que os pais são como os governos: mantemos nossa autoridade através da ameaça, explícita ou implícita, de força física. Uma criança faz o que nós lhe dizemos para fazer porque — para ir direto ao ponto — podemos lhe quebrar o braço.

Antes de me condenar por completo, eu lhe peço que compreenda o quanto eu estava tentando ser uma boa mãe. Porém, tentar ser uma boa mãe pode estar tão distante de sê-lo quanto tentar se divertir está de se divertir de fato.

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Dee Dee Ramone

Trechos retirados do livro “Mate-me por favor – Uma história sem censura do Punk (Volume 1)”, de Legs McNeil & Gillian McCain – editora L&PM Pocket.

(págs. 215/216)

RICHARD HELL: Dee Dee apareceu na audição que promovemos quando Verlaine e eu estávamos tentando achar um segundo guitarrista pro Television. Botamos anúncios, e pouca gente apareceu. Foi engraçado, não conseguimos ouvir mais de quatro ou cinco pessoas, e duas delas foram Chris Stein e Dee Dee Ramone. Isso foi antes de conhecermos qualquer um dos dois.

DEE DEE RAMONE: Tom Verlaine e Richard Hell eram umas pessoas calculistas, sérias, muito determinadas. Todos os outros estavam fazendo tudo ao acaso, mas eles eram diferentes. Pensei que fossem beatniks.

RICHARD HELL: A gente tentou mostrar uma canção pra Dee Dee Ramone, mas ele errou tudo. Ele só tocava acordes básicos, porque era tudo que sabia. Você só precisa de um dedo para tocar um acorde de compasso. E a gente dizia pra ele: “Ok, isso é um Mi”. E ele começava a tocar, e a gente dizia: “Mi”. E ele dizia: “Oh! Oh!”. E começava a tocar uma outra coisa. Era o quadro da dor. E a gente dizia: “Não. Não. Não, cara; Mi”.

Dee Dee olhava com aquele ar cômico e movia o dedo um pouquinho… A gente fazia que não balançando a cabeça, e ele movia um pouquinho mais… Ele era muito engraçado. Parecia um cachorrinho naquela audição. Mas enfim a gente teve que dizer: “Vai nos desculpar…”.

DEE DEE RAMONE: Fui chutado de lá porque não sabia tocar.

“53 COM TERCEIRA” (págs. 227/228)

MICK LEIGH: Lembro de estar dirigindo pela Rua 53 com a Terceira Avenida e ver Dee Dee Ramone parado lá. Ele estava com uma jaqueta de motoqueiro, de couro preto, a mesma que usaria depois na capa do primeiro álbum. Estava simplesmente parado lá, então saquei o que ele estava fazendo, porque sabia que aquele era o ponto dos michês gays. Ainda assim eu ficava meio chocado ao ver alguém que eu conhecia circulando por ali, tipo: “Puta merda, olha só, é Doug fazendo ponto. Ele está mesmo nessa”.

DEE DEE RAMONE: A canção “53rd & 3rd” fala por si. Tudo que escrevo é autobiográfico e muito real. Não sei escrever de outro jeito.

LEGS MCCNEIL: “53rd & 3rd” é uma canção deprimente. É sobre um cara parado na esquina da 53 com a Terceira tentando fazer programas com homens, mas ninguém nunca o pega. Daí, quando alguém pega, ele mata o viado pra provar que não é uma bichona.

DANNY FIELDS: Não creio que Dee Dee fosse michê em tempo integral e sei que ele era mais a fim de garotas do que de garotos. Acho que isto era muito moderno. Acho que todo mundo deveria ser capaz de trepar com todo mundo e que o gênero sexual deveria se o de menos. Neste sentido Dee Dee era muito moderno. Não acho que ele se envergonhasse de ter feito o que fez.

NOTA: Douglas Glenn Colvin, mais conhecido como Dee Dee Ramone, foi encontrado morto no sofá de sua casa em Hollywood pela sua esposa no dia 6 de junho de 2002, vítima de overdose, aos 50 anos. Dee Dee morreu onze semanas após a inclusão do grupo Ramones no Rock and Roll Hall of Fame.

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OS PERSONAGENS:

– CHRIS STEIN: Ex guitarrista solo do Blondie. Produziu Zombie Birdhouse, álbum solo de Iggy Pop.

– DANNY FIELDS: Ex-“Doidão da Firma” da Elektra Records. Ex-executivo da Atlantic Records. Ex-editor da Revista 16. Ex-colunista do SoHo Weekly Neews. Ex-empresário dos Stooges. Ex-empresário (com Steve Paul) de Jonathan Richman and the Modern Lovers. Ex-empresário (com Linda Stein) dos Ramones e de Steve Forbert. Atualmente empresaria o artista Paleface.

– DEE DEE RAMONE: Músico; compositor; ator; ex-baixista do Ramones; artista solo; ; co-estrela do filme Rock and Roll High Scholl.

– LEGS MCCNEIL: Escritor. Ex-punk de plantão da revista Punk. Ex-editor-sênior da revista Spin. Ex-editor-chefe da revista Nerve.

– MICK LEIGH: Músico. Irmão mais moço de Joey Ramone. Ex-guitarrista do Tangerine Puppets, banda de Joey Ramone. Ex-roadie dos Ramones. Ex-guitarrista do Birdland de Lester Bangs. Atualmente é vocalista e guitarrista do Stop.

– RICHARD HELL: Poeta; escritor; ator; ex-baixista e cantos dos Néon Boys, que se tornou Television; ex-cantor e baixista dos Heartbreakers, com Johnny Thunders; ex-vocalista e baixista do Richard Hell and the Voidoids; estrela do filme Geração Punk (Blank Generation); co-estrelou Smithreens, primeiro filme de Susan Seidelman, e fez o papel de namorado de Madonna em Procura-se Susan Desesperadamente (Desperately Seekig Susan); autor do romance Go Now.

– TOM VERLAINE: Músico; ex-colega de escola de Richard Hell; ex-guitarrista e vocalista do Television; artista solo.

Sobre a gravação do álbum “Velvet Underground and Nico”

Andy Warhol:
Durante todo o tempo em que o álbum estava sendo feito ninguém parecia satisfeito com aquilo, especialmente Nico. “Quero cantar como Baawwwhhhb Deeelahhn” (Bob Dylan!), gemia ela, contrariadíssima porque não conseguia.

Lou Reed:
Andy deu uma dentro ao garantir que em nosso primeiro álbum a linguagem permanecesse intacta. Acho que Andy estava a fim de chocar, de dar uma sacudida nas pessoas e de não deixar que nos convencessem a fazer concessões. “Oh, vocês têm que ter certeza de que os palavrões serão mantidos”. Ele foi inflexível nisto. Ele não queria que fosse feita uma limpeza, e, porque ele estava lá, não foi feita. E, em consequência disso, a gente sempre soube como é ter estilo próprio.


Iggy Pop:
A primeira vez que ouvi o disco do Velvet Underground e Nico foi numa festa no campus da Universidade de Michigan. Simplesmente odiei o som. Sabe como é: “COMO É QUE ALGUÉM PODE FAZER UM ÁLBUM COM UM SOM DE MERDA DESSES? ISSO É NOJENTO! TODA ESSA GENTE ME DÁ NO SACO! GENTALHA HIPPIE FODIDA! BEATNIKS FODIDOS, SOU A FIM DE MATAR TODOS ELES! ESSE SOM É UM LIXO!”
Depois, uns seis meses mais tarde, o disco me pirou. “Oh, meu Deus! Uau! Essa é uma porra de um disco genial!”. Este discoo se tornou importantíssimo pra mim, não só por causa do que dizia e por ser tão maravilhoso, mas também porque ouvi outras pessoas que sabiam fazer uma música boa – sem serem nada boas em música. Isto me deu esperança. Foi a mesma coisa que na primeira vez que ouvi Mick Jagger cantando. Ele só consegue cantar uma nota, não tem inflexão nenhuma e só vai: “Hey, well baby, I can be oeweowww….” Toda canção é no mesmo tom invariável, e é só aquele garoto dizendo as letras. Foi o mesmo com os Velvets. O som era tão simples e ainda assim tão bom.

Saiba mais sobre o “Velvet Underground & Nico”, ou o “álbum da banana”. 

O dicionário da corte de Paulo Francis (parte I)

ARTE

O segredo da grande arte é ser tão pessoal e estreita que, pela força do seu exclusivismo, fala com o mundo inteiro. (Folha de S. Paulo, 23/7/88)

BAKER, CHET

Outro dia vi “Let`s get lost”, um documentário sobre Chet Baker. Chet, escroto como todo drogado, mas que importa? Bastou ouvi-lo no trompete, com uma voz curiosamente andrógina e perdi a consciência de mim mesmo, como em grande música. (FSP, 7/5/89)

BEATLES

Os Beatles sabiam que estavam se vendendo para promover uma alternativa familiar à fúria mais autêntica e perigosa (para a burguesia) dos Rolling Stones. (FSP, 12/7/84)

BEBER

Bebi muitos anos. Para ficar bêbado. Não posso imaginar outra razão. O bebedor social é coisa de pequeno-burguês. (OESP, 27/1/91)

BOND, JAMES

Bond sempre foi infantil, um super-homem para presumíveis adultos. Mas só é divertido com Sean Connery. Connery deixa bastante claro que é nosso cúmplice em não levar a sério a machice imbatível de Bond e a loucura de folhetim dos vilões. Roger Moore sugere o rapaz bonzinho se fazendo de cínico. (FSP, 21/7/79)

Sean Connery
Roger Moore

BOSSA NOVA

Bossa Nova é a única música brasileira a ter aceitação universal. Até na URSS eu a ouvi. E é frequente em qualquer lugar civilizado no chamado Ocidente. Me dizem que no Brasil, pouca gente toca (o que inclui o rádio). A bossa nova é tida como “velha guarda”. Todo mundo tem direito a uma opinião. A opinião do mundo é que a bossa nova é a música popular brasileira não restrita ao Brasil. E não me digam que deve à americana. O que não deve? Todos mamam na música americana, exceto o sambão. E este não passa fronteiras. (FSP, 15/11/84)

Esses meninos e meninas nos alegraram e não desbancaram ninguém. Deram continuidade a uma tradição respeitável da música popular. (FSP, 15/11/90)

 

BRANDO, MARLON

Brando foi um dos homens mais bonitos do século. Sua beleza está registrada indelevelmente em filmes como “Espíritos Indômitos (The Men)” e “Uma rua chamada pecado (A street car named Desire)”. Brando tinha movimentos de felino. Ele sempre disse que foi o fato de lhe quebrarem o nariz, numa luta de boxe, entortando-o, que o fez ter um rosto diferente. Waaal, os traços dele são muito bons, os olhos são fundos e, claro, talento não se explica. Queimava o resto do elenco em “Espíritos Indômitos” pelo simples ato de olhar para eles. É a extraordinária capacidade de auto-introspecção de Brando e sua capacidade de projetá-la que o tornaram unicamente célebre. Ele não precisava fazer nada, apenas SER em cena. (FSP, 19/7/90)

...
Alguém disse... felino?

Na cabeceira: Mate-me por favor Vol 1

Mate-me por favor. Uma história sem censura do punk

de Legs McNeil e Gillian McCain

Fonte: Vaca Tussa

Escrito por: Thiago Corrêa

Mate-me por favor é recheado de fofocas e lendas feitas a partir de depoimentos das pessoas que viveram e construíram o movimento punk. O grande mérito do livro é não apenas se basear nos relatos, mas utilizá-los, construindo um intricado jogo de vozes que se completam. É como se fosse a transcrição de um documentário. Mesmo com essa multiplicidade de narradores, as histórias se encaixam evidenciando o excelente trabalho de edição, organização e montagem. Apesar disso, não é a versão dos autores, são os próprios artistas, empresários, jornalistas e groupies que contam suas versões e segredos sobre fatos que se tornaram lendas. Tudo vindo diretamente dos bastidores do punk.

O interessante é que assim, o livro preserva o clima de camaradagem da cena, os ídolos não são vistos como ídolos, mas como pessoas que interagiam e freqüentavam os mesmo lugares de quem dá os depoimentos. É possível ver Lou Reed ou David Bowie não protegidos pela aura dos ícones que se tornaram, mas como um brothagem da galera. Um prato cheio para os fãs. As loucuras são tantas que parece haver uma disputa para ver quem é o mais pirado. Sem dúvida Iggy Pop, Dee Dee Ramone e Sid Vicious estão entre os finalistas.

Mas nem só de fofocas e histórias junkie sobrevive Mate-me por favor. Vai além dos relatos para os fãs, existe um conteúdo histórico e sociológico também, onde se explica a fúria do punk. Aborda desde a Factory de Andy Warhol e o começo do Velvet Underground, ao glam rock e início do punk com o MC5, Stooges, New York Dolls, passando por Television, Ramones, Blondie e chegando aos extremos da versão inglesa para o punk com Malcom McLaren, Sex Pistols e The Clash.

A leitura apóia-se na oralidade e segue uma fluidez que se quebra às vezes pela falta de conhecimento sobre os personagens/narradores, que são muitos e acabam se perdendo ao longo do livro. Para ajudar, no fim do livro existe um índice de apresentação dos personagens, o problema é que ele não vem em ordem alfabética.

Paulo Francis por Paulo Francis

Dizem que ofendo as pessoas. É um erro.

Trato as pessoas como adultas. Critico-as.

É tão incomum isso na nossa imprensa que as pessoas acham que é ofensa.

Crítica não é raiva. É crítica.

Às vezes é estúpida. O leitor que julgue.

Acho que quem ofende os outros e os leitores é o jornalismo em cima do muro, que não quer contestar coisa alguma.

Meu tom às vezes é sarcástico. Pode ser desagradável.

Mas é, insisto, uma forma de respeito, ou, até, se quiserem, a irritação do amante rejeitado.

o mundo se faz em pedaços e é preciso criá-lo de novo

Sua mão encontrou a de Oliveira quando os dois, ao mesmo tempo, se abaixavam para levantar o cobertor. Durante toda essa tarde, Oliveira assistiu outra vez, uma vez mais, uma de tantas vezes mais, testemunho irônico e comovido de seu próprio corpo, às surpresas, aos encantos e às decepções da cerimônia.

Habituado, sem saber, ao ritmo da Maga, de repente um novo mar, uma agitação diferente o arrancava aos automatismos, confrontava-o, parceia denunciar obscuramente a sua solidão, enredada de simulacros. Enquanto o desencanto de passar de uma boca para outra, de procurar com os olhos fechados um pescoço onde a mão dormiu, recolhida, e sentir que a curva é diferente, uma base espessa, um tendão que se crispa rapidamente com o esforço de incorporar-se para beijar ou morder. Cada momento do seu corpo, frente a um desencontro delicioso, ter de estender-se um pouco mais, ou baixar a cabeça para encontrar a boca que, antes, estava ali perto. Acariciar umas ancas mais estreitas, provocar uma réplica e não a encontrar, insistir, distraído, até se dar conta de que era preciso inventar tudo outra vez, que o código não fora seguido, que as chaves e as cifras terão de nascer de novo, ser diferentes, responderem a outra coisa.

O peso, o cheiro, o tom de uma risada ou uma súplica, os tempos e as precipitações, nada coincidia, embora fosse igual, tudo nascia de novo. Sendo imortal, o amor brinca de inventar-se, fugindo de si mesmo para regressar na sua espiral surpreendente, os seios cantam de outro modo, a boca beija mais profundamente como que de longe e, num momento onde havia algo como a cólera e a angústia, é agora o jogo puro, a agitação incrível, ou, ao contrário, na hora em que, antes, caía no sono, no murmúrio de coisas doces e ridículas, agora existe uma tensão, algo incomunicado, mas presente, que exige incorporar-se, algo como uma raiva insaciável.

Apenas o prazer em seu último esvoaçar é igual, antes e depois, o mundo se faz em pedaços e é preciso criá-lo de novo, dedo por dedo, lábio por lábio, sombra por sombra.

 

Jogo da Amarelinha, Júlio Cortázar

capítulo 92, página 484