O conto da ilha desconhecida – José Saramago

… é deste modo que o destino costuma comportar-se connosco, já está mesmo atrás de nós, já estendeu a mão para tocar-nos o ombro, e nós ainda vamos a murmurar, Acabou-se, não há mais nada que ver, é tudo igual.
página 19

Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar.
página 23

Não tarda que o sol se ponha, e ele a aparecer-me aí a clamar que tem fome, que é o dito de todos os homens mal entram em casa, como se só eles é que tivessem estômago e sofressem da necessidade de o encher
página 26

O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, (…) e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa.
páginas 27 e 28

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Sobre Natacha Medvedeva (de Limonov)

“Era espetacular: alta, majestosa, coxas fortes, modeladas em meias de rede. (…) Eduard estava loucamente apaixonado. (…) Uma garota das ruas, uma fora da lei, nascida como ele num melancólico subúrbio soviético e lançada na conquista do vasto mundo tendo únicos trunfos a beleza estonteante, a voz de contralto e o humor brutal de sobrevivente. (…) Natacha seria a pessoa certa porque estavam em pé de igualdade: duas crianças abandonadas que se haviam reconhecido ao primeiro olhar e que nunca mais se separariam.” Pág 177

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Sobre Elena (de Limonov)

“Nos primeiros dias, percorrem Manhattam, de mãos dadas, enlaçados na cintura, observando sofregamente, em volta, no alto, depois entreolhando-se, caindo na risada e beijando-se, ainda mais sofregamente. (…) Eles circulam, entram nas butiques caríssimas, nos diners, nos fast-foods, em pequenos cinemas com sessões duplas, alguns dos quais passam filmes pornôs, o que também os seduz. Ela fica molhada na poltrona ao lado dele, comunica-lhe o fato, ele a masturba. Quando as luzes se acendem, descobrem à sua volta o público de solitários que os gemidos de Elena devem ter excitado mais que o filme, e ele, Eduard, derrete-se de orgulho por ter uma mulher tão bonita, ser invejado por aqueles pobres coitados, não tem vindo àquele lugar impelido pela indigência sexual como eles, e sim pelo gosto por experiências curiosas e exóticas que caracterizam o verdadeiro libertino.” Pág 108

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“Ele ganhou. A inveja é generalizada: o mundinho do underground, onde nunca se viu mulher tão bela e sofisticada, e os ricos, de quem o insolente poeta de jeans branco arrebatou a princesa. Elena e ele, por algumas estações, são os reis da boemia moscovita. Se existiu, em torno de 1970, no mais negro do negrume brejneviano, alguma coisa como um glamour soviético, eles foram sua encarnação. Há uma foto em que o vemos de pé, cabelos compridos, triunfante, trajando o que chama de sua ‘farda de herói nacional’, um patchwork feito de cento e catorze retalhos multicoloridos, costurado por ele, e, a seus pés, Elena, desnuda, deslumbrante, graciosa, com seus peitinhos leves e rijos que o deixavam louco. Ele guardou essa fotografia a vida inteira, carregou-a por toda parte, prendeu-a na parede, como um ícone, em cada um de seus acampamentos. É seu amuleto. Ela diz que, aconteça o que acontecer, desça o mais baixo que puder, um dia ele foi aquele homem. Possuiu aquela mulher.” Pág 98

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Evelyn Nesbit e “O Crime do Século” (de Ragtime)

“Na cidade de Nova York, os jornais fervilhavam com a morte do famoso arquiteto Stanford White por Harry K. Thaw, excêntrico herdeiro de uma fortuna em minas de carvão e estradas de ferro. Harry K. Thaw era casado com Evelyn Nesbit, célebre beldade que fora amante de Stanford White. O crime ocorreu no terraço do Madison Square Garden, na 26th Street, espetacular edifício de tijolos amarelos e terracota, ocupando um quarteirão inteiro, e que fora desenhado em estilo sevilhano pelo próprio White. Foi na estreia de um musical intitulado Mamzelle Champagne, e, enquanto o coro cantava e dançava, o excêntrico herdeiro, trajando naquela noite de verão chapéu de palha e sobretudo preto, sacou uma pistola e atingiu o famoso arquiteto com três disparos na cabeça. No terraço. Ouviram-se gritos. Evelyn desmaiou. Ela foi modelo de um artista com a idade de 15 anos. Usava roupas de baixo brancas. Era habitualmente açoitada pelo marido. Certa vez, encontrou por acaso Emma Goldman, a revolucionária. Goldman agrediu-a verbalmente. (…) E, embora os jornais chamassem ao assassinato “O Crime do Século”, Goldman sabia que se estava apenas em 1906 e que restavam ainda 94 anos pela frente.” pág 13

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“Amavam-se devagar e sinuosamente, impelindo-se um ao outro a estados tão sutis de orgasmo que encontravam poucos motivos para conversar no restante do tempo que passavam juntos. Era característico de Evelyn não poder resistir a alguém que se sentisse tão fortemente atraído por ela.” pág 93

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“Sentada no banco das testemunhas, descreveu-se aos 15 anos erguendo as pernas num balanço de veludo vermelho, enquanto um rico arquiteto continua a respiração à vista de suas coxas. Resoluta, manteve-se de cabeça erguida. Vestia-se com gosto impecável. Seu depoimento criou a primeira deusa do sexo americana. Dois setores da sociedade perceberam-no. O primeiro foi a comunidade empresarial, especificamente um grupo de contabilistas e fabricantes de capas e ternos, que também se imiscuía na exibição de quadros em movimento, ou cinematógrafo, como era chamado. Alguns notaram que a foto de Evelyn na primeira página de um jornal fazia esgotar a edição e compreenderam que existia um processo de ampliação, pelo qual as notícias fixavam determinados indivíduos na mente do público em proporção mais ampla que o natural. Esses eram os indivíduos que representavam uma característica humana desejável a ponto de excluir todas as outras. Os homens de negócios perguntavam-se se poderiam criar tais elementos, não a partir das casualidades do noticiário, e sim da deliberada manipulação de seu próprio meio. Se o conseguissem, mais pessoas pagariam para ver shows de cinematógrafo. Assim, Evelyn forneceu inspiração para o conceito do sistema de estrelato do cinema e modelo de todas as deusas do sexo, de Theda Bara a Marilyn Monroe.” pág 94

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“Em Seattle, por exemplo, Emma Goldman falou a um grupo de trabalhadores da indústria local, citando Evelyn Nesbit como filha da classe operária, cuja vida constituía um exemplo de como as filhas e irmãs dos pobres eram usadas para o prazer dos ricos. Os homens da platéia caçoaram, berraram observações grosseiras e desataram a rir. (…) Goldman enviou uma carta a Evelyn dizendo: Com freqüência me perguntam ‘Como podem as massas deixarem-se explorar pela minoria?’ A resposta é: sendo persuadidas a identificar-se com ela. Levando pra casa um jornal com sua foto e entregando-o à mulher, uma exausta égua de carga com veias varicosas, ele sonha não com justiça e sim com riqueza.” pág 95

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Ragtime, E. L. Doctorow

SOBRE TRABALHO INFANTIL

“Nas fazendas de tabaco, os negros colhiam folhas 13 horas por dia, ganhando 6 centavos a hora, fosse homem, mulher ou criança. As crianças não sofriam discriminação. Eram apreciadas onde quer que se empregassem. Não se queixavam, conforme era hábito entre os adultos. Os patrões gostavam de considerá-las elfos felizes. Caso surgisse problema a respeito do emprego de crianças, referia-se apenas a sua resistência física. Eram mais ágeis que os adultos, mas tendiam, nas últimas horas do dia, a perder certo grau de eficiência. Nas fábricas de enlatados e nas usinas, em geral era nesse período que perdiam os dedos, imprensavam as mãos, ou esmagavam as pernas; precisavam ser orientadas no sentido de permanecer alertas. Nas minas trabalhavam na triagem do carvão e eram às vezes sufocadas nas rampas; avisavam-nas então que se mantivessem atentas. (…) Aparentemente havia quotas para tais coisas. Quotas para a morte pela fome.” pág 49

 

SOBRE CERTAS COISAS QUE NUNCA MUDAM

“Entrou em moda venerar o pobre. Em palácios de Nova York e Chicago organizavam-se bailes da pobreza e os convidados compareciam vestidos de andrajos, comiam em pratos de estanho e bebiam em canecas de esmalte descascado. Os salões eram decorados de modo a parecerem minas, com travas aparentes, trilhas e lanternas portáteis. Firmas de cenários teatrais eram contratadas para transformar jardins em sujas fazendas e salas de jantar em fábricas de algodão. Os convidados fumavam pontas de charuto oferecidas em bandejas de prata. Menestréis pintavam o rosto de preto. Uma anfitriã fez convites para um baile nas docas. Os convidados compareceram com longos aventais e cabeça coberta por gorro branco. Jantou-se e dançou-se sob as carcaças ensangüentadas dos bois, movimentadas ao redor da sala por meio de roldanas. Entranhas espalhavam-se pelo chão. Os lucros foram revertidos para obras de caridade.” pág 50

 

SOBRE INJUSTIÇA

“… será a injustiça sofrida um universo visto ao espelho, com as leis da lógica e os princípios da razão opostos aos da civilização?” pág 279

Quem por aqui já leu o livro "Ragtime", de E. L. Doctorow? Esse foi o livro enviado em agosto pela TAG e também um dos mais vendidos nos Estados Unidos em 1975, ano em que foi lançado. 🎹📚 #taglivros

Outlander – A Viajante do Tempo, Diana Gabaldon

 

“Certa vez, viajando à noite, adormeci no banco do carona de um carro em movimento, embalada pelo barulho e pelo deslocamento, até à ilusão de uma serena ausência de peso. O motorista do carro entrou numa ponte a uma velocidade alta demais e perdeu o controle do carro. Acordei do meu sonho de estar flutuando direto no clarão de faróis e na sensação nauseante de estar caindo em alta velocidade. Essa transição brusca é o mais próximo que posso chegar para descrever a sensação que experimentei, mas ainda deixa dolorosamente a desejar.” – pág 54

“Parecia inconcebível, mas todas as evidências indicavam que eu estava em algum lugar onde os costumes e a política do final do século XVIII ainda vigoravam. Eu teria imaginado que tudo não passava de algum tipo de espetáculo à fantasia, se não fosse pelos ferimentos do jovem a quem chamavam de Jamie. Aquele ferimento fora realmente provocado por algo muito semelhante a um tiro de mosquete, a julgar pelos estragos que deixara.” – pág 75

“Você esquece a sua vida após um tempo. Coisas que lhe são queridas são como um colar de pérolas. Corte-o e elas se espalham pelo chão, indo para cantos escuros, não sendo mais encontradas. Então você segue em frente. E um dia acaba esquecendo como as pérolas eram.”

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Quase Memória, Carlos Heitor Cony

“Estou sem fome, apensas cansado. Paro o carro diante de um bar aberto na orla, a essa hora devem servir pizzas ou sanduíches. O calçadão de Copacabana, decadente e vazio, só tem agora alguns travestis que caçam fregueses. Apesar de a noite estar bonita, nem quente nem fria, sinto sordidez na pizza, no calçadão, afinal, eu passara as últimas horas numa viagem pela memória e tudo aqui fora ficou absurdo, irreal. Ou real demais.

Amanhã… amanhã vou guardá-lo, tal como o pai o deixou. Quando digo “amanhã” nesse tom (amanhã…) penso nele quando dizia, cada noite, antes de dormir: “Amanhã farei grandes coisas!” Mesmo quando não fazia nada, para ele o viver, o chegar à outra noite e se prometer que no dia seguinte faria grandes coisas era, em si, uma grande coisa.

A promessa feita a mim mesmo de guardar o embrulho me tranquiliza, já não sinto o cansaço e não gostaria de encerrar esse dia, pudesse, eu o prolongaria, até o infinito da memória.”

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