João Gilberto, a maconha, e outras cositas más.

Quando João e os garotos se divorciaram e ficou esquisito que ele continuasse morando no apartamento com eles, Lúcio Alves convidou-o a passar uns tempos em seu apartamento – até que achasse outro lugar. Pelo visto, não era muito fácil, e João tendia a eternizar-se onde o acolhessem. (pág. 74)

Sobre a maconha, leiam aqui nesse post do Trabalho Sujo .

Musicalmente, os dois (João Gilberto e João Donato) exigiam tudo dos outros e um pouco mais de si mesmos, o que tornava difícil sua convivência em grupo – ninguém parecia bom o suficiente pra gravar com eles.  Mas, deste rol de exigências, não constava um enorme apego à disciplina, e isto nem sempre era muito bem compreendido pelos seus empregadores.  Com tantas afinidades, era normal que se ligassem como carne e unha naqueles primeiros e incertos  anos 50 – e que, diante dos outros, se comunicassem num incômodo código, composto mais de silêncio do que de palavrasm ligeiramente inacessível aos mortais. Isto valeu a ambos uma fama de excêntricos, da qual nunca se livraram. (pág. 77)

João ainda estava trocando os band-aids pelo fim de seu romance com Sylvinha Telles em 1953 quando conheceu Mariza, dezenove anos. Achou-a ma morena de fechar o comércio, o que não exigia grande poder de observação, e, quando lhe disseram que ela gostava de cantar, sacou mais que depressa o violão para acompanhá-la. JOão ficou tão duplamente impressionado que não resistiu à habitual pergunta, se ela não queria se tornar uma cantora de verdade. Na verdade, queria fazer dela a sua namorada, o que conseguiu, mas o falo é que também a transformou em cantora. (…) Ou seja, João fez por Marisa o que não conseguia fazer por si mesmo. (pág. 80)

A coisa começava a ficar preocupante. Àquela altura já estava há mais de um ano sem emprego, e os jingles que começaram a gravar no estúdio de Russo do Pandeiro mal davam para o bonde. Além disso, não fora para ser um cantor de jingles que ele viera da Bahia.

E que jingles! No do Toddy, por exemplo, a letra dizia:

“Eu era um garoto magricelo/Muito feio e amarelo// Toddy todo dia ele tomou / Engordou e melhorou / Forte  ficou. // As garotas agora me chamam bonitão / No esporte eu sou o campeão”

Gravou outros até piores, mas aquele foi o que mais o fez sofrer, porque, até então, ele gostava de Toddy. (pg. 81)

Duas coisas prendiam João á casa do amigo Clóvis Santos: o diabólico ensopado de quiabo que sua mulher, Iola, preparava quase diariamente, a seu pedido, e a mudinha de maconha que ele plantara num vasinho e que gostava de ver crescer. Mariza, que o acompanhava à casa de Clóvis, não sabia o que era aquilo e se encantava com o súbito interesse do seu namorado por botânica. (pág. 81)

Ao contrário do que se pensa, João Gilberto nunca chegou a ser um membro dos Quitandinha Serenaders. Mas andava tanto com eles que era como se fosse. (pág. 85)

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