Sobre Natacha Medvedeva (de Limonov)

“Era espetacular: alta, majestosa, coxas fortes, modeladas em meias de rede. (…) Eduard estava loucamente apaixonado. (…) Uma garota das ruas, uma fora da lei, nascida como ele num melancólico subúrbio soviético e lançada na conquista do vasto mundo tendo únicos trunfos a beleza estonteante, a voz de contralto e o humor brutal de sobrevivente. (…) Natacha seria a pessoa certa porque estavam em pé de igualdade: duas crianças abandonadas que se haviam reconhecido ao primeiro olhar e que nunca mais se separariam.” Pág 177

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Sobre Elena (de Limonov)

“Nos primeiros dias, percorrem Manhattam, de mãos dadas, enlaçados na cintura, observando sofregamente, em volta, no alto, depois entreolhando-se, caindo na risada e beijando-se, ainda mais sofregamente. (…) Eles circulam, entram nas butiques caríssimas, nos diners, nos fast-foods, em pequenos cinemas com sessões duplas, alguns dos quais passam filmes pornôs, o que também os seduz. Ela fica molhada na poltrona ao lado dele, comunica-lhe o fato, ele a masturba. Quando as luzes se acendem, descobrem à sua volta o público de solitários que os gemidos de Elena devem ter excitado mais que o filme, e ele, Eduard, derrete-se de orgulho por ter uma mulher tão bonita, ser invejado por aqueles pobres coitados, não tem vindo àquele lugar impelido pela indigência sexual como eles, e sim pelo gosto por experiências curiosas e exóticas que caracterizam o verdadeiro libertino.” Pág 108

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“Ele ganhou. A inveja é generalizada: o mundinho do underground, onde nunca se viu mulher tão bela e sofisticada, e os ricos, de quem o insolente poeta de jeans branco arrebatou a princesa. Elena e ele, por algumas estações, são os reis da boemia moscovita. Se existiu, em torno de 1970, no mais negro do negrume brejneviano, alguma coisa como um glamour soviético, eles foram sua encarnação. Há uma foto em que o vemos de pé, cabelos compridos, triunfante, trajando o que chama de sua ‘farda de herói nacional’, um patchwork feito de cento e catorze retalhos multicoloridos, costurado por ele, e, a seus pés, Elena, desnuda, deslumbrante, graciosa, com seus peitinhos leves e rijos que o deixavam louco. Ele guardou essa fotografia a vida inteira, carregou-a por toda parte, prendeu-a na parede, como um ícone, em cada um de seus acampamentos. É seu amuleto. Ela diz que, aconteça o que acontecer, desça o mais baixo que puder, um dia ele foi aquele homem. Possuiu aquela mulher.” Pág 98

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Limonov, Emmanuel Carrère

“Limonov foi delinquente na Ucrânia, ídolo do underground soviético; mendigo, depois mordomo de um bilionário em Manhattan; escritor da moda em Paris; soldado perdido nos Bálcãs; e agora, no imenso caos do pós-comunismo, velho chefe carismático de um partido de jovens desesperados. Ele mesmo se vê como herói, podemos considerá-lo um tratante.” pág 28

“Vinte milhões de russos morreram na guerra, mas outros vinte milhões de sem-teto enfrentam o pós-guerra. A maioria das crianças não tem mais pai, a maioria dos homens ainda vivos está inválida. Em cada esquina esbarra-se com manetas ou pernetas ou paralíticos. Por toda parte vêem-se bandos de crianças abandonadas, filhos de pais mortos na guerra ou de  inimigos do povo, crianças famintas, ladras, regredidas ao estado selvagem, deslocando-se em hordas perigosas e em cujo benefício a idade da responsabilidade criminal, isto é, da pena de morte, foi reduzida para doze anos.” Pág 35

“… no mundo dos ‘decadentes’ de Kharkov, o gênio deve não apenas ser desconhecido como também desvairado, delirante, socialmente desajustado. (…) Me dou conta de que eu mesmo pratiquei, até uma idade relativamente avançada, o culto romântico da loucura. Passou, graças a Deus. A experiência me ensinou que esse romantismo é uma estupidez, que a loucura é o que há de mais triste e melancólico no mundo.” Pág 62

“Um francês chegando pela primeira vez a Nova York não se surpreende ou, quando isso acontece, é porque a cidade é muito parecida com o que ele viu nos filmes. Já para os filhos da Guerra Fria e de um país onde os filmes americanos são proscritos, todas aquelas imagens são novas: o vapor subindo das bocas de lobo; as escadas de metal agarradas como aranhas no flanco dos prédios de tijolo encardido; as placas luminosas acavalando-se na Broadway, a skyline vista de um gramado do Central Park; a  animação ininterrupta; as sirenes dos carros de polícia; os táxis amarelos, os engraxates negros; as pessoas que falam sozinhas andando na rua, sem que ninguém interfira para dar um basta naquilo. Para quem vem de Moscou, é como passar de um filme em preto e branco para um em cores.” Pág 107

“O hotel Winslow é um antro de russos, judeus na maioria, que, fazem parte da ‘terceira emigração’, a dos anos 1970, e os quais ele é capaz de reconhecer na rua, mesmo de costas, pela aura de lassidão e infortúnio que deles emana. (…) Em Moscou ou Leningrado, eles eram poetas, pintores, músicos, intrépidos under que se mantinham aquecidos nas cozinhas. Agora, em Nova York, são lavadores de prato, pintores de prédio, freteiros, e não adianta eles tentarem continuar a acreditar no que acreditavam no começo, que aquilo é provisório, que um dia seus verdadeiros talentos serão reconhecidos; sabem claramente que não é verdade. Então, sempre entre eles, sempre em russo, enchem a cara, se lamentam, falam do país, sonham que recebem autorização para voltar, mas não os deixarão voltar: morrerão perseguidos e ludibriados.” Pág 123

“A vantagem das pessoas que distribuem panfletos, sejam elas de esquerda ou testemunhas de Jeová, é que tem o hábito de levar foras e apreciam quando alguém se dispõe a conversar.” Pág 131

“Eduard é a favor da revolução mundial. Por princípio, está do lado dos vermelhos, dos negros, dos árabes, dos veados, dos mendigos, dos drogados, dos porto-riquenhos, de todos aqueles que, sem nada a perder, são, ou pelo menos deveriam ser, igualmente adeptos da revolução mundial. (…) Impressionada com o seu fervor, ela o convida para uma manifestação de apoio ao povo palestino, advertindo-o: pode ser perigoso. Ótimo, empolga-se Eduard, mas a manifestação, no dia seguinte, decepciona-o horrivelmente. Não é que falte veemência aos discursos, o problema é que no fim todo mundo se despede, as pessoas voltam pra casa ou, em pequenos grupos, vão confabular em cafeterias, sem outra perspectiva a não ser uma nova manifestação, no mês seguinte.

– Não compreendo – diz Carol, perplexa. – O que você queria?

– Ora, que ficássemos juntos. Que fôssemos arranjar armas e atacássemos uma repartição. Ou desviássemos um avião. Ou cometêssemos um atentado. Enfim, não sei, alguma coisa.” Pág 131

“Penso que todos os criados sonham mais ou menos com isso, trepar na cama dos patrões, que alguns o fazem e que as pessoas que empregam criados, quando não são idiotas, têm conhecimento do fato e fecham os olhos. O essencial é que tudo fique bem arrumado depois, que os lençóis girem na máquina de lavar, e quanto a isso ele podia confiar em Eduard.” Pág 151

“O câncer não respeita o dinheiro. Ofereça bilhões, ele não recuará. E é ótimo que assim seja: pelo menos é uma coisa diante da qual todo mundo está em pé de igualdade.” LIMONOV pág 153

“Antoine Vitez já esteve por diversas vezes na União Soviética e estima que ali é a verdadeira vida: grave, adulta, pesando seu peso real. Os rostos, diz ele, são rostos de verdade, escalavrados, laminados, ao passo que no Ocidente só se vêem caras de bebês. No Ocidente, tudo é permitido e nada tem importância, aqui é o contrário: nada é permitido, tudo tem importância, e Vitez parece achar muito melhor desse jeito. Por conseguinte, é só da boca pra fora que aprova as mudanças em curso. Evidentemente, não é possível objetar contra a liberdade, tampouco contra o conforto, mas não se deveria perder a alma do país com isso.” Pág 205

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Jacob Riis e a imigração em Nova York no começo do século XX (de Ragtime)

“A esta altura da história, Jacob Riis, incansável jornalista e reformador, escreveu sobre a necessidade de moradia decente para os pobres. Viviam aglomerados numa só peça. Não possuíam sanitários. As ruas cheiravam a excremento. Crianças morriam de simples resfriados ou de leves erupções de pele. Morriam em camas improvisadas com duas cadeiras de cozinha. Morriam no chão. Muita gente acreditava que sujeira, fome e doença eram o que os imigrantes mereciam por sua degradação moral. Mas Riis acreditava em poços de ventilação. Poços de ventilação, luz e ar trariam saúde. (…) Riis desenhou mapas coloridos da população étnica de Manhattan. Cinza opaco para os judeus. Vermelho para os italianos morenos. Azul para os frugais alemães. Verde para os irlandeses. Negro para os africanos. E amarelo para os chineses, limpos como os gatos, felinos também nos traços de cruel ambição e fúria selvagem, quando despertos. E, acrescentando-se manchas coloridas para os finlandeses, os árabes, os gregos, etc., obtinha-se uma colcha doida de retalhos, gritava Riis, uma colcha doida de humanidade!” – pág 26

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Evelyn Nesbit e “O Crime do Século” (de Ragtime)

“Na cidade de Nova York, os jornais fervilhavam com a morte do famoso arquiteto Stanford White por Harry K. Thaw, excêntrico herdeiro de uma fortuna em minas de carvão e estradas de ferro. Harry K. Thaw era casado com Evelyn Nesbit, célebre beldade que fora amante de Stanford White. O crime ocorreu no terraço do Madison Square Garden, na 26th Street, espetacular edifício de tijolos amarelos e terracota, ocupando um quarteirão inteiro, e que fora desenhado em estilo sevilhano pelo próprio White. Foi na estreia de um musical intitulado Mamzelle Champagne, e, enquanto o coro cantava e dançava, o excêntrico herdeiro, trajando naquela noite de verão chapéu de palha e sobretudo preto, sacou uma pistola e atingiu o famoso arquiteto com três disparos na cabeça. No terraço. Ouviram-se gritos. Evelyn desmaiou. Ela foi modelo de um artista com a idade de 15 anos. Usava roupas de baixo brancas. Era habitualmente açoitada pelo marido. Certa vez, encontrou por acaso Emma Goldman, a revolucionária. Goldman agrediu-a verbalmente. (…) E, embora os jornais chamassem ao assassinato “O Crime do Século”, Goldman sabia que se estava apenas em 1906 e que restavam ainda 94 anos pela frente.” pág 13

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“Amavam-se devagar e sinuosamente, impelindo-se um ao outro a estados tão sutis de orgasmo que encontravam poucos motivos para conversar no restante do tempo que passavam juntos. Era característico de Evelyn não poder resistir a alguém que se sentisse tão fortemente atraído por ela.” pág 93

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“Sentada no banco das testemunhas, descreveu-se aos 15 anos erguendo as pernas num balanço de veludo vermelho, enquanto um rico arquiteto continua a respiração à vista de suas coxas. Resoluta, manteve-se de cabeça erguida. Vestia-se com gosto impecável. Seu depoimento criou a primeira deusa do sexo americana. Dois setores da sociedade perceberam-no. O primeiro foi a comunidade empresarial, especificamente um grupo de contabilistas e fabricantes de capas e ternos, que também se imiscuía na exibição de quadros em movimento, ou cinematógrafo, como era chamado. Alguns notaram que a foto de Evelyn na primeira página de um jornal fazia esgotar a edição e compreenderam que existia um processo de ampliação, pelo qual as notícias fixavam determinados indivíduos na mente do público em proporção mais ampla que o natural. Esses eram os indivíduos que representavam uma característica humana desejável a ponto de excluir todas as outras. Os homens de negócios perguntavam-se se poderiam criar tais elementos, não a partir das casualidades do noticiário, e sim da deliberada manipulação de seu próprio meio. Se o conseguissem, mais pessoas pagariam para ver shows de cinematógrafo. Assim, Evelyn forneceu inspiração para o conceito do sistema de estrelato do cinema e modelo de todas as deusas do sexo, de Theda Bara a Marilyn Monroe.” pág 94

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“Em Seattle, por exemplo, Emma Goldman falou a um grupo de trabalhadores da indústria local, citando Evelyn Nesbit como filha da classe operária, cuja vida constituía um exemplo de como as filhas e irmãs dos pobres eram usadas para o prazer dos ricos. Os homens da platéia caçoaram, berraram observações grosseiras e desataram a rir. (…) Goldman enviou uma carta a Evelyn dizendo: Com freqüência me perguntam ‘Como podem as massas deixarem-se explorar pela minoria?’ A resposta é: sendo persuadidas a identificar-se com ela. Levando pra casa um jornal com sua foto e entregando-o à mulher, uma exausta égua de carga com veias varicosas, ele sonha não com justiça e sim com riqueza.” pág 95

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Freud visita a América (de Ragtime)

“Claro que a primeira recepção de Freud na América não foi promissora. Alguns alienistas profissionais compreendiam sua importância, mas para o público em geral não passava de uma espécie de sexólogo alemão, um expoente do amor livre, que usava grandes palavras para falar de coisas sujas. Uma década pelo menos transcorreria antes que Freud se vingasse, vendo suas ideias começarem a destruir para sempre o sexo na América.” – pág 44

“Não conseguira habituar-se à alimentação e à escassez de banheiros públicos na América e acreditava que a viagem arruinara seu estômago e sua bexiga. Toda a população parecia-lhe hiperativa, espalhafatosa e grosseira. A vulgar apropriação, em larga escala, da arte e da arquitetura européias, sem levar em conta período ou país, era espantosa. Vira em nossa descuidada mistura de enorme riqueza e enorme pobreza o caos de uma entrópica civilização europeia. Instalado em seu confortável estúdio de Viena, sentiu-se satisfeito por estar de volta. E disse a Ernest Jones: a América é um erro, um erro gigantesco.” – pág 48

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Ragtime, E. L. Doctorow

SOBRE TRABALHO INFANTIL

“Nas fazendas de tabaco, os negros colhiam folhas 13 horas por dia, ganhando 6 centavos a hora, fosse homem, mulher ou criança. As crianças não sofriam discriminação. Eram apreciadas onde quer que se empregassem. Não se queixavam, conforme era hábito entre os adultos. Os patrões gostavam de considerá-las elfos felizes. Caso surgisse problema a respeito do emprego de crianças, referia-se apenas a sua resistência física. Eram mais ágeis que os adultos, mas tendiam, nas últimas horas do dia, a perder certo grau de eficiência. Nas fábricas de enlatados e nas usinas, em geral era nesse período que perdiam os dedos, imprensavam as mãos, ou esmagavam as pernas; precisavam ser orientadas no sentido de permanecer alertas. Nas minas trabalhavam na triagem do carvão e eram às vezes sufocadas nas rampas; avisavam-nas então que se mantivessem atentas. (…) Aparentemente havia quotas para tais coisas. Quotas para a morte pela fome.” pág 49

 

SOBRE CERTAS COISAS QUE NUNCA MUDAM

“Entrou em moda venerar o pobre. Em palácios de Nova York e Chicago organizavam-se bailes da pobreza e os convidados compareciam vestidos de andrajos, comiam em pratos de estanho e bebiam em canecas de esmalte descascado. Os salões eram decorados de modo a parecerem minas, com travas aparentes, trilhas e lanternas portáteis. Firmas de cenários teatrais eram contratadas para transformar jardins em sujas fazendas e salas de jantar em fábricas de algodão. Os convidados fumavam pontas de charuto oferecidas em bandejas de prata. Menestréis pintavam o rosto de preto. Uma anfitriã fez convites para um baile nas docas. Os convidados compareceram com longos aventais e cabeça coberta por gorro branco. Jantou-se e dançou-se sob as carcaças ensangüentadas dos bois, movimentadas ao redor da sala por meio de roldanas. Entranhas espalhavam-se pelo chão. Os lucros foram revertidos para obras de caridade.” pág 50

 

SOBRE INJUSTIÇA

“… será a injustiça sofrida um universo visto ao espelho, com as leis da lógica e os princípios da razão opostos aos da civilização?” pág 279

Quem por aqui já leu o livro "Ragtime", de E. L. Doctorow? Esse foi o livro enviado em agosto pela TAG e também um dos mais vendidos nos Estados Unidos em 1975, ano em que foi lançado. 🎹📚 #taglivros