Sono, de Haruki Murakami

(…) deixei de temer o fato de não dormir. Não havia o que temer. O importante era manter uma atitude positiva. “Estou expandindo minha vida”, pensei. Eu tinha o período das dez da noite às seis da manhã só para mim. Até então, eu consumia um terço do dia numa atividade denominada dormir; o que eles chamam de “tratamento para esfriar o motor”. Mas, agora, um terço da minha vida passou a me pertencer. Não é mais de ninguém. É somente meu. Posso usá-lo do jeito que eu bem entender. Nesse período, ninguém vai me incomodar nem me requerer. Isso sim significa expandir a vida. Eu havia ampliado a minha vida em um terço.

Ninguém percebeu que mudei. Ninguém percebeu que eu não dormia, que eu estava lendo um livro extenso e que minha mente estava a centenas de anos, a milhares de quilômetros de distândia da realidade. Meu marido, meu filho e minha sogra continuavam, como sempre, falando comigo, sem perceberem que eu realizava mecanicamente as tarefas da realidade, desprovida de sentimentos e emoções. Parecia que estavam mais à vontade comigo do que de costume.


Me sentei no sofá e continuei a ler Anna Karenina. Ao reler esse romance percebi que praticamente não me lembrava mais do enredo. Poderia dizer o mesmo em relação aos protagonistas e às cenas. A impressão era de ler outro romance. “Que sensação estranha”, pensei. Quando o li pela primeira vez, me lembro de ter ficado muito emocionada, mas, no final das contas, nada me restara da experiência. Em algum momento, as lembranças de um sentimento intenso desapareceram sorrateiramente, sem deixar vestígios.

 

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A história de Jeanne Calment, 122 anos

Nascida em fevereiro de 1875 em Arles, França, e falecida no dia 4 de agosto de 1997, tornou-se a pessoa mais longeva da história cuja idade pôde ser confirmada.

Afirmou que “competia com Matusalém”. E a verdade é que bateu muitos recordes à medida que envelhecia.

Morreu de causas naturais depois de uma vida prazerosa na qual não se privou de quase nada. Andou de bicicleta até os 100 anos. Viveu em sua casa até os 110, quando aceitou ir para um centro de repouso depois de provocar por acidente um pequeno incêndio em seu apartamento. Parou de fumar aos 120: tinha dificuldade de levar o cigarro à boca por causa da catarata.

Talvez um de seus segredos fosse o bom humor: “Vejo pouco, escuto mal, não posso sentir nada, mas está tudo bem”, afirmou em seu aniversário de 120 anos.

extraído do livro IKIGAI

Ikigai

“Somos o que fazemos repetidamente. 

A excelência não é um ato, mas um hábito.”

ARISTÓTELES

 

O livro “Ikigai: Os segredos dos japoneses para uma vida longa e feliz”, escrito por Héctor Garcia e Francesc Mirales, e publicado no Brasil pela Editora Intrínseca, define o “ikigai” como sendo “a razão pela qual nos levantamos pela manhã”, ou seja, um propósito na vida. Esse ikigai seria, junto à dieta, exercício e boas ligações sociais, o segredo da longevidade e da saúde. Apesar de sua semelhança a um livro de auto-ajuda, Ikigai traz excelentes dicas para uma vida melhor. Seguem os meus trechos preferidos:

Sobre a importância de fazer coisas novas pela primeira vez:
“Uma pessoa começa a treinar o cérebro diante de uma tarefa enfrentada pela primeira vez. E parece muito difícil, mas, como ela esta aprendendo,  treinamento funciona. Na segunda vez, percebe que é mais fácil, e não mais difícil, porque a faz cada vez melhor. O efeito que isso tem sobre o estado de espirito da pessoa é fantástico. Por si só é uma transformação que não apenas afeta os resultados obtidos, mas também a percepção que ela tem de si mesma.”

Remédios japoneses para aliviar o estresse:
– tomar um banho demorado, escutando musica enquanto relaxa.
– manter a mesa de trabalho, a casa, o quarto e tudo ao redor limpo e organizado. Se perceber que esta estressado, talvez o primeiro passo seja por seu entorno em ordem.
– fazer exercício, alongamentos e respirações profundas.
– manter uma alimentação balanceada
– fazer massagem na cabeça
– praticar qualquer tipo de meditação

Dicas para combater o sedentarismo, inimigo da juventude:
– caminhar pelo menos vinte minutos por dia
– andar em vez de usar o elevador ou escadas rolantes
– participar de atividades de lazer ou sociais para não passar tempo demais diante da TV
– trocar biscoitos por frutas
– dormir apenas o necessário
– brincar com crianças ou animais de estimação
– fazer alguma atividade esportiva
– estar atento ao nosso dia a dia para trocar rotinas nocivas por outras mais positivas.

O conto da ilha desconhecida – José Saramago

… é deste modo que o destino costuma comportar-se connosco, já está mesmo atrás de nós, já estendeu a mão para tocar-nos o ombro, e nós ainda vamos a murmurar, Acabou-se, não há mais nada que ver, é tudo igual.
página 19

Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar.
página 23

Não tarda que o sol se ponha, e ele a aparecer-me aí a clamar que tem fome, que é o dito de todos os homens mal entram em casa, como se só eles é que tivessem estômago e sofressem da necessidade de o encher
página 26

O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, (…) e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa.
páginas 27 e 28

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Sobre Natacha Medvedeva (de Limonov)

“Era espetacular: alta, majestosa, coxas fortes, modeladas em meias de rede. (…) Eduard estava loucamente apaixonado. (…) Uma garota das ruas, uma fora da lei, nascida como ele num melancólico subúrbio soviético e lançada na conquista do vasto mundo tendo únicos trunfos a beleza estonteante, a voz de contralto e o humor brutal de sobrevivente. (…) Natacha seria a pessoa certa porque estavam em pé de igualdade: duas crianças abandonadas que se haviam reconhecido ao primeiro olhar e que nunca mais se separariam.” Pág 177

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Sobre Elena (de Limonov)

“Nos primeiros dias, percorrem Manhattam, de mãos dadas, enlaçados na cintura, observando sofregamente, em volta, no alto, depois entreolhando-se, caindo na risada e beijando-se, ainda mais sofregamente. (…) Eles circulam, entram nas butiques caríssimas, nos diners, nos fast-foods, em pequenos cinemas com sessões duplas, alguns dos quais passam filmes pornôs, o que também os seduz. Ela fica molhada na poltrona ao lado dele, comunica-lhe o fato, ele a masturba. Quando as luzes se acendem, descobrem à sua volta o público de solitários que os gemidos de Elena devem ter excitado mais que o filme, e ele, Eduard, derrete-se de orgulho por ter uma mulher tão bonita, ser invejado por aqueles pobres coitados, não tem vindo àquele lugar impelido pela indigência sexual como eles, e sim pelo gosto por experiências curiosas e exóticas que caracterizam o verdadeiro libertino.” Pág 108

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“Ele ganhou. A inveja é generalizada: o mundinho do underground, onde nunca se viu mulher tão bela e sofisticada, e os ricos, de quem o insolente poeta de jeans branco arrebatou a princesa. Elena e ele, por algumas estações, são os reis da boemia moscovita. Se existiu, em torno de 1970, no mais negro do negrume brejneviano, alguma coisa como um glamour soviético, eles foram sua encarnação. Há uma foto em que o vemos de pé, cabelos compridos, triunfante, trajando o que chama de sua ‘farda de herói nacional’, um patchwork feito de cento e catorze retalhos multicoloridos, costurado por ele, e, a seus pés, Elena, desnuda, deslumbrante, graciosa, com seus peitinhos leves e rijos que o deixavam louco. Ele guardou essa fotografia a vida inteira, carregou-a por toda parte, prendeu-a na parede, como um ícone, em cada um de seus acampamentos. É seu amuleto. Ela diz que, aconteça o que acontecer, desça o mais baixo que puder, um dia ele foi aquele homem. Possuiu aquela mulher.” Pág 98

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Limonov, Emmanuel Carrère

“Limonov foi delinquente na Ucrânia, ídolo do underground soviético; mendigo, depois mordomo de um bilionário em Manhattan; escritor da moda em Paris; soldado perdido nos Bálcãs; e agora, no imenso caos do pós-comunismo, velho chefe carismático de um partido de jovens desesperados. Ele mesmo se vê como herói, podemos considerá-lo um tratante.” pág 28

“Vinte milhões de russos morreram na guerra, mas outros vinte milhões de sem-teto enfrentam o pós-guerra. A maioria das crianças não tem mais pai, a maioria dos homens ainda vivos está inválida. Em cada esquina esbarra-se com manetas ou pernetas ou paralíticos. Por toda parte vêem-se bandos de crianças abandonadas, filhos de pais mortos na guerra ou de  inimigos do povo, crianças famintas, ladras, regredidas ao estado selvagem, deslocando-se em hordas perigosas e em cujo benefício a idade da responsabilidade criminal, isto é, da pena de morte, foi reduzida para doze anos.” Pág 35

“… no mundo dos ‘decadentes’ de Kharkov, o gênio deve não apenas ser desconhecido como também desvairado, delirante, socialmente desajustado. (…) Me dou conta de que eu mesmo pratiquei, até uma idade relativamente avançada, o culto romântico da loucura. Passou, graças a Deus. A experiência me ensinou que esse romantismo é uma estupidez, que a loucura é o que há de mais triste e melancólico no mundo.” Pág 62

“Um francês chegando pela primeira vez a Nova York não se surpreende ou, quando isso acontece, é porque a cidade é muito parecida com o que ele viu nos filmes. Já para os filhos da Guerra Fria e de um país onde os filmes americanos são proscritos, todas aquelas imagens são novas: o vapor subindo das bocas de lobo; as escadas de metal agarradas como aranhas no flanco dos prédios de tijolo encardido; as placas luminosas acavalando-se na Broadway, a skyline vista de um gramado do Central Park; a  animação ininterrupta; as sirenes dos carros de polícia; os táxis amarelos, os engraxates negros; as pessoas que falam sozinhas andando na rua, sem que ninguém interfira para dar um basta naquilo. Para quem vem de Moscou, é como passar de um filme em preto e branco para um em cores.” Pág 107

“O hotel Winslow é um antro de russos, judeus na maioria, que, fazem parte da ‘terceira emigração’, a dos anos 1970, e os quais ele é capaz de reconhecer na rua, mesmo de costas, pela aura de lassidão e infortúnio que deles emana. (…) Em Moscou ou Leningrado, eles eram poetas, pintores, músicos, intrépidos under que se mantinham aquecidos nas cozinhas. Agora, em Nova York, são lavadores de prato, pintores de prédio, freteiros, e não adianta eles tentarem continuar a acreditar no que acreditavam no começo, que aquilo é provisório, que um dia seus verdadeiros talentos serão reconhecidos; sabem claramente que não é verdade. Então, sempre entre eles, sempre em russo, enchem a cara, se lamentam, falam do país, sonham que recebem autorização para voltar, mas não os deixarão voltar: morrerão perseguidos e ludibriados.” Pág 123

“A vantagem das pessoas que distribuem panfletos, sejam elas de esquerda ou testemunhas de Jeová, é que tem o hábito de levar foras e apreciam quando alguém se dispõe a conversar.” Pág 131

“Eduard é a favor da revolução mundial. Por princípio, está do lado dos vermelhos, dos negros, dos árabes, dos veados, dos mendigos, dos drogados, dos porto-riquenhos, de todos aqueles que, sem nada a perder, são, ou pelo menos deveriam ser, igualmente adeptos da revolução mundial. (…) Impressionada com o seu fervor, ela o convida para uma manifestação de apoio ao povo palestino, advertindo-o: pode ser perigoso. Ótimo, empolga-se Eduard, mas a manifestação, no dia seguinte, decepciona-o horrivelmente. Não é que falte veemência aos discursos, o problema é que no fim todo mundo se despede, as pessoas voltam pra casa ou, em pequenos grupos, vão confabular em cafeterias, sem outra perspectiva a não ser uma nova manifestação, no mês seguinte.

– Não compreendo – diz Carol, perplexa. – O que você queria?

– Ora, que ficássemos juntos. Que fôssemos arranjar armas e atacássemos uma repartição. Ou desviássemos um avião. Ou cometêssemos um atentado. Enfim, não sei, alguma coisa.” Pág 131

“Penso que todos os criados sonham mais ou menos com isso, trepar na cama dos patrões, que alguns o fazem e que as pessoas que empregam criados, quando não são idiotas, têm conhecimento do fato e fecham os olhos. O essencial é que tudo fique bem arrumado depois, que os lençóis girem na máquina de lavar, e quanto a isso ele podia confiar em Eduard.” Pág 151

“O câncer não respeita o dinheiro. Ofereça bilhões, ele não recuará. E é ótimo que assim seja: pelo menos é uma coisa diante da qual todo mundo está em pé de igualdade.” LIMONOV pág 153

“Antoine Vitez já esteve por diversas vezes na União Soviética e estima que ali é a verdadeira vida: grave, adulta, pesando seu peso real. Os rostos, diz ele, são rostos de verdade, escalavrados, laminados, ao passo que no Ocidente só se vêem caras de bebês. No Ocidente, tudo é permitido e nada tem importância, aqui é o contrário: nada é permitido, tudo tem importância, e Vitez parece achar muito melhor desse jeito. Por conseguinte, é só da boca pra fora que aprova as mudanças em curso. Evidentemente, não é possível objetar contra a liberdade, tampouco contra o conforto, mas não se deveria perder a alma do país com isso.” Pág 205

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